Na casa de banho dos homens da empresa estavam uns armários roupeiro metálicos que tinham sido usados, na época em que a empresa tinha uma indústria a funcionar naquelas instalações, para os funcionários da fábrica guardarem as suas roupas quando vestiam a roupa-farda que usavam para trabalhar. Um dia recebi ordem da administração da empresa para tratar de organizar a mudança dos ditos armários para outro edifício onde iriam ser utilizados com outro fim. Fui à casa de banho dos homens, acompanhada de um colega homem a quem pedi que me antecedesse não fosse eu surpreender alguém nos urinóis (que não me incomodaria mas era provável que incomodasse quem fosse por mim apanhado), ver os ditos armários, para poder depois organizar o seu transporte, e descobri que um deles estava fechado à chave e a chave não estava na fechadura. Indagado o colega que me acompanhava se sabia quem - e para quê - usava aquele armário ele disse-me que era o Sr. L que o usava para guardar uma toalha e mais umas tretas que não faziam falta nenhuma mas que o Sr. L, com as suas manias, achava não só necessárias como tão preciosas que tinham de estar aferrolhadas. Fui falar com o Sr. L que estava no seu posto de trabalho, uma secretária do Departamento Administrativo que funcionava num 'open-space'. Num tom de voz normal e com toda a educação e cordialidade expliquei-lhe que tinha recebido ordens para enviar os armários para outro edifício e pedi-lhe para retirar as coisas dele do armário que estava a usar e deixar a chave na fechadura. Com o ar mais arrogante do mundo respondeu-me, alto e bom som "Tiro as minhas coisas se me apetecer, se não me apetecer não tiro!". Odeio estupidez e arrogância e por isso, também alto e bom som, respondi-lhe "Então vou pôr o assunto de outra maneira: os armários vão ser transportados para o outro edifício conforme as ordens da administração que recebi. Se o Sr. L lhe apetecer tirar as suas coisas e deixar lá a chave seguem todos vazios e com chave na fechadura. Se o Sr. L não lhe apetecer tirar de lá as suas coisas aquele armário é levado fechado, com as suas coisas lá dentro e eu vou informar a administração que é o Sr. L quem tem a chave porque não lhe apeteceu tirar as coisas que lá guarda!" E virei-lhe as costas indo embora mas ainda vi que ele - que era muito branquinho - tinha ficado vermelho que nem um pimento. Quando me virei quase me ia desmanchando a rir porque todos os colegas dele estavam a rir desalmadamente embora de forma mais ou menos disfarçada, o que o deve ter deixado ainda mais vermelho e mais furioso. E, claro!, tirou as tralhas dele do armário e deixou lá a chave, como devia ter aceitado fazer ao meu primeiro pedido.
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terça-feira, 3 de janeiro de 2017
terça-feira, 20 de setembro de 2016
HISTÓRIAS ANTIGAS - Colegas estranhos: a I
A primeira vez que a vi nem queria acreditar. Tinha à minha
frente uma versão mais feia da Miss Piggy na pessoa de uma mulher da minha
idade, à época trinta e picos anos. O cabelo pintado de louro-amarelo, a pele
rosada, côr de rosa mesmo, carradas de maquilhagem, umas unhas gigantes
pintadas de rosa berrante, uma roupa indescritível de tão cheia de rendas e
folhos e brilhantes, e uns sapatos igualmente indescritíveis de tão feios, com um salto
agulha de 15 cms. Era a nova secretária de um dos departamentos comerciais da empresa,
recomendada por uma irmã do director desse departamento, que tinha sido colega
dela noutra empresa, como uma profissional excelente. A excelência enquanto
conhecimentos da profissão veio a provar-se mas para ser excelente enquanto
profissional faltava-lhe bom senso, não tinha nenhum. Logo no dia a seguir a
ter iniciado funções resolveu fazer uma “partidinha” a um dos comerciais do
departamento onde trabalhava. Chegando mais cedo do que os comerciais encheu a
secretária desse dito cujo de pimenta. Depois dele ter passado o dia todo a
espirrar acabou por se perceber que o problema estava na mesa de trabalho dele
porque ele deixava de espirrar quando saía de lá e porque outras pessoas
espirravam quando se aproximavam de lá. E uma observação atenta detectou a
pimenta, às carradonas. Então ela assumiu a autoria da “gracinha” embora
ninguém tivesse percebido o porquê. Aparentemente foi uma “praxe” e ter sido
aquele colega e não outro foi uma escolha aleatória. Sorte dela que era um
fulano tranquilo e boa pessoa e embora tivesse ficado atónito não ficou
chateado. Depois de muitas peripécias, que incluíram começar a aparecer de
quando em vez com um ou os dois olhos negros que ela alegava terem sido causados por quedas em que
batera com a cara, na realidade porque tinha um namorado que lhe dava porrada,
decidiu, porque ficou chateada por não lhe darem um aumento que pediu, passar
os dias a jogar “solitaire” e não fazer nenhum excepto o que lhe era solicitado
directamente pelo próprio director do departamento. E assim decorreram uns 3 ou
4 meses. Os prejudicados eram os comerciais do departamento que não quiseram
fazer queixa dela e aguentaram a situação. E fora eles só eu me apercebi do que
se estava a passar mas como não tinha nada a ver com o assunto limitei-me a
aconselhá-la a não ter aquela atitude, conselho que caiu em saco-rôto. Até que
um director de outro departamento comercial, que com frequência passava pelo
posto de trabalho dela porque ambos os departamentos partilhavam o mesmo
'open-space', se apercebeu de que ela passava os dias a jogar “solitaire” e
disse-o ao director do departamento onde ela trabalhava. Os comerciais foram
chamados para confirmar a situação e confirmaram. E a "Miss Piggy" foi despedida. Cerca de um ano e meio depois de ter chegado.
terça-feira, 13 de setembro de 2016
HISTÓRIAS ANTIGAS - Colegas estranhos: o Sr. L
O Sr. L, funcionário dos serviços
administrativos, na época com uns cinquenta e picos anos, era uma pessoa
desagradável e muito irritante. Achava-se o máximo, arvorava-se em chefe dos
colegas, aos quais passava a vida a “picar os miolos” metendo-se onde não era
chamado, e era, de um modo geral, antipático e arrogante para toda a gente.
Além destas características que o tornavam 'persona non grata' para toda a gente
dentro da empresa, ainda era um fulano cheio de manias, parvas como todas as
manias, mas das quais fazia gala pois achando-se o máximo achava também o máximo as
suas manias. Um dia, por uma questão estética, a administração trocou as
cadeiras do bar da empresa, daquelas vulgares cadeiras de café em plástico côr
de laranja, por outras exactamente iguais mas em côr azul forte que ficavam
melhor com os tons cinza, branco e amarelo das paredes, portas, balcões e
mesas. O Sr. L dedicou meia-hora a experimentar todas as cadeiras para
“escolher a mais confortável” para os seus problemas de coluna. E escolhida uma
colou-lhe uma etiqueta na parte de baixo do assento. Ficámos então a saber,
pelos funcionários do bar, que já nas cadeiras côr de laranja ele tinha feito o
mesmo. E decidimos, eu e um grupinho de colegas que detestávamos o homem e
adorávamos fazer brincadeiras e pregar partidas, dar-lhe cabo do juízo com as
etiquetas até ele desistir. Foi uma semana de gáudio. Com a conivência dos
funcionários do bar e das funcionárias da limpeza, para nos contarem as
reacções e actos do Sr. L, e para inspeccionar as cadeiras, e para nos darem
acesso ao bar quando estava encerrado, começámos a campanha “Irritar o Sr. L”.
Primeiro tirámos a etiqueta que ele tinha posto. Ele voltou a experimentar as
cadeiras e a etiquetar uma. Nós voltámos a tirar a etiqueta. Ele voltou a experimentar as cadeiras e a etiquetar
uma delas. Então nós arranjámos etiquetas iguais e etiquetámos metade das
cadeiras do bar exactamente da mesma maneira como ele tinha etiquetado a “sua
cadeira”. Aparentemente ele desistiu. Ou então arranjou alguma maneira de
identificar a “sua cadeira” que nós não conseguimos descobrir, ou nunca
percebeu que a cadeira etiquetada não era uma mas sim metade das cadeiras do
bar.
segunda-feira, 20 de junho de 2016
HISTÓRIAS ANTIGAS - Valentões de treta
A empresa onde eu trabalhava estava a falir e tinha imensas
dívidas a fornecedores. Uma manhã apareceram à porta da empresa dois matulões
muito mal encarados a exigir o pagamento duma dívida a um despachante. Queriam
falar com o proprietário e administrador da empresa. A directora financeira foi
falar com eles, mentiu dizendo que o administrador não estava lá, e conseguiu que eles saíssem das instalações.
Mas saíram ameaçando que não iam embora dali e que esperavam o que fosse
preciso pelo administrador. À hora de almoço saí para almoçar com um grupo de
colegas (já tínhamos combinado ir almoçar em dois grupos, cada um de sua vez, e
trazer almoço para o administrador para ele não sair) e fomos olhando à procura
dos matulões mal encarados. Apesar de estarmos preocupados com a situação, íamos morrendo de riso quando os topámos, qual filme de espionagem de 3ª
categoria, sentados dentro de um carro estacionado, com jornais abertos à
frente das caras (suponho que tinham uns buracos nos jornais para controlar a
porta da empresa). Quando estávamos a almoçar, num restaurante das proximidades,
os matulões apareceram lá. Falaram com o empregado e foram embora. Perguntámos
ao empregado, que conhecíamos bem pois íamos àquele restaurante quase todos os
dias, o que é que os matulões tinham falado com ele. Tinham perguntado se algum
dos homens do nosso grupo era o administrador. Ele disse que não e por isso eles
saíram. Durante toda a tarde os meus colegas andaram armados em valentões
dizendo ao administrador que se os matulões aparecessem faziam e aconteciam. Só
eu fui avisando o administrador que se os matulões aparecessem era a primeira a
fugir e a fugir bem rapidamente. Depois de fugir chamava a polícia mas não ia
arriscar-me a levar porrada. Alguns de nós fomos saindo, dois a dois, por
alguns minutos, para tomar café e controlar os matulões que lá continuavam no
carro estacionado com os seus jornais a tapar as caras. Mas ao fim da tarde os
meus colegas valentões foram todos saindo e eis senão quando só lá ficámos eu e
o administrador. Que como habitualmente, mas com um ar completamente “enfiado”
me perguntou “Queres boleia para casa?”, eu respondi “Querer não quero, sair
daqui contigo hoje é muito perigoso, mas tudo bem, como os meus colegas
valentões já se piraram todos... eu saio
à frente a ver se os matulões ainda estão por aí. Se não estiverem fico à tua
espera, se estiverem continuo a andar e chamo a polícia para te tirar
daqui.” Ele concordou e assim
combinados, eu saí. Observei cuidadosamente todas as redondezas e nem sinal dos
matulões. Fiquei portanto à espera como tínhamos combinado e ele saiu também e
deu-me boleia para casa. A situação resolveu-se no dia seguinte com uma reunião
com o despachante que tinha enviado os matulões.
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016
HISTÓRIAS ANTIGAS - Onda de desagradibilidades
Há alturas em que parece que entro numa onda de atrair
desagradabilidades. Em 3 dias seguidos: dia 1 - o senhor duma tabacaria onde eu
ia imensas vezes deu-me o saco, (que pedi para levar o jornal e o maço de
tabaco que tinha comprado por estar com uma mala minúscula onde nenhum deles
cabia e ser desconfortável levar o jornal e o maço de tabaco na mão), com modos
de contrariado e com um discurso moralista de que “dantes” nem havia sacos e as
pessoas levavam os jornais na mão mas que “agora” toda a gente quer sacos para
levar os jornais. Não gostei mesmo nada. Porque é uma raridade eu pedir sacos,
acho que nem nunca tinha pedido naquela tabacaria, pois normalmente ando com
uma mala bem grandona e não peço sacos nem mesmo quando compro um jornal e uma
revista e tabaco de enrolar e mortalhas e cigarros duma só vez, pois cabe tudo
na minha mala. E porque ele fez este
discurso todo em alta voz , diante de outros clientes e falando para a “geral”.
Perdeu uma cliente, decidi e cumpri, não voltei a pôr lá os pés (e já passaram
4 anos). Deve ser “alérgico” a sacos (ou a dar sacos?) mas está a atender
clientes tem de aguentar a “alergia” e ficar calado; dia 2 - a senhora dum quiosque,
onde também vou imensas vezes, respondeu-me desabridamente quando lhe perguntei,
obviamente em tom de brincadeira, se podia “oferecer-lhe” um encarte
publicitário que vinha no jornal que estava a comprar-lhe. Disse que também não
lhe interessava nada e eu que o pusesse no lixo, apontando-me o contentor
(dela) na esquina do prédio em frente, tão longe do quiosque que eu não
imaginava lhe pertencesse. Também não gostei. Mas a esta ainda dei o desconto
de se ter sentido ofendida por não entender que o meu “oferecer” era a brincar,
ou de apenas ser rude e não saber dizer a mesma coisa de uma maneira mais
simpática e delicada. Como mais de metade do dia é o marido dela que lá está e
é naturalmente mais cordial e simpático do que ela, continuei a ir lá; dia 3 - levei com o meu
vizinho do rés-do-chão que além de ser super chato e desatar a falar à menor
oportunidade, é mentiroso e má língua, odeia a senhora que limpa a escada, e em
apenas 2 ou 3 minutos que durou a
conversa, porque eu ia-lhe dando atenção mas sempre em andamento a afastar-me
dele, conseguiu dizer duas mentiras e ainda falar mal da senhora da limpeza,
que é Cabo-Verdiana, referindo-a como “a preta”. Muito desagradável mesmo. Só não lhe disse que
a senhora tem nome e que ele é racista, além de mentiroso, porque eu não lhe dizia praticamente
nada além de bom dia, boa tarde, até amanhã, porque não queria dar-lhe
confiança, apenas lhe respondia o mínimo dos mínimos para não ser mal-educada. (Deste
livrei-me quando mudei de casa embora
ainda o veja de vez em quando, na rua, porque não mudei para muito longe).
quinta-feira, 8 de outubro de 2015
HISTÓRIAS ANTIGAS - A "fera" à solta
No bairro onde morei vários anos em Paço de Arcos, em dada
altura comecei a ouvir histórias sobre pessoas atacadas por um cão boxer albino
que os donos deixavam à solta pelo bairro. Ouvi algumas histórias na primeira
pessoa, contadas por vítimas do cão, e muitas outras em segunda mão. Reparei
num denominador comum estranho em todas aquelas histórias. Nenhuma das vítimas
dos ataques do cão tinha sido mordida, as pessoas tinham-se magoado mas por caírem quando
corriam a fugir do cão e ele as alcançava e se atirava a elas. Percebi a
incongruência no dia em que eu própria tive um encontro imediato de terceiro
grau com o dito cão. Não tenho medo de cães
mas, sem dúvida, foi assustador ver aquele cão corpulento a caminhar na minha
direcção e a começar a correr desenfreadamente para mim mal me viu. Mas não tendo medo de cães, não entrei em pânico, consegui raciocinar que ele corria mais rápido do que eu e lembrar-me de que ele ainda não tinha mordido ninguém, e não fugi. Pelo contrário, parei, encarei-o e comecei a falar com ele “Pára! Pára! Pára!”, ele foi abrandando a corrida e quando chegou ao pé de mim parou. Continuei
a falar com ele, ele começou a abanar a cauda, fiz-lhe umas festinhas na cabeça
e depois segui o meu caminho e ele seguiu o dele, nem sequer foi atrás de mim. Resumindo,
o cão feroz era apenas um cão jovem e mal-educado que corria para as pessoas
para brincar, como as pessoas desatavam a correr fugindo dele ele ia atrás e,
claro, acabava por as alcançar e atirava-se a elas deitando-as ao chão. Depois
ia embora tal como fez comigo. Não voltei a encontrá-lo até porque as vítimas
conseguiram fazer queixa dos donos e ele deixou de andar à solta pelo bairro.
quinta-feira, 24 de setembro de 2015
HISTÓRIAS ANTIGAS - Como é possível?!?!?
Um dia, há muitos anos, na rua onde eu morava disparou um
alarme dum carro, daqueles tipo buzina de camião, por volta da meia-noite. E
uma hora depois ainda continuava a buzinar. Eu queria ir dormir e a primeira
coisa que pensei foi chamar a polícia. Mas já farta de ser sempre eu a ter de
me chatear a chamar a polícia, apesar de existirem mais milhentos incomodados, e
sendo o meu quarto para as traseiras da casa, um pátio privado e oposto à rua
onde estava a buzina, decidi fechar totalmente todas as janelas e estores e
portas interiores e enfiar uma almofada em cima da cabeça, medidas que eliminaram
para mim o barulhão do alarme, e deixar a solução do problema
para os outros incomodados sem recursos iguais ao meu para resolver o incómodo,
os (muitos) vizinhos que tinham os quartos virados para a rua. No dia seguinte
de manhã, quando saí no bairro, fresca e
bem dormida, encontrei imensos vizinhos, ensonados e cheios de olheiras, a
queixarem-se de dores de cabeça e a lamentarem-se porque não tinham conseguido
dormir nada à conta da buzina que, segundo disseram, tinha atroado os ares
ininterruptamente até às 7 da manhã. E – como é possível?!?!!? - nenhum desses, muitos, lamentosos ensonados
tinha feito absolutamente nada para tentar parar aquela barulheira.
domingo, 20 de setembro de 2015
HIATÓRIAS ANTIGAS - Vizinho estranho
Morei durante muitos anos em Paço de Arcos. Em dada altura
foi morar para o andar debaixo um casal um pouco estranho. Vestiam-se como
'hippies' dos anos 60, apesar de estarmos nos anos 90 e deles terem no máximo 30 anos de idade, tinham filhos atrás de filhos,
quando cruzávamos respondiam ao meu cumprimento sempre com os olhos no chão, ele
ausentava-se periodicamente por bastante tempo.
Quando já tinham 4 filhos houve uma noite em que ele me foi
tocar à campainha logo depois do jantar, 20H30 mais coisa menos coisa.
Cumprimentou-me e disse que precisava falar comigo e eu, parva, embora não
conseguindo vislumbrar nenhum assunto, mandei-o entrar. Sentados na minha sala
ele começou com uma conversa que eu nem estava a acreditar porque era de
loucos. Disse-me que tinha energias negativas em casa e que como se dedicava à
magia branca achava que as energias negativas só podiam estar a vir de alguém
nas proximidades que se dedicava à magia negra. Como eu recebia muitas pessoas
achava que era eu que fazia sessões de magia negra e que era daí que iam as
energias negativas para a casa dele. Entre o preocupada por estar sózinha, em minha
casa, com uma pessoa mentalmente desequilibrada e o perdida de riso com a
história, lá lhe respondi que não fazia magia de espécie nenhuma e que as
pessoas que recebia em casa eram simples amigos que vinham jantar, conversar,
tomar um café. Mas não resisti a acrescentar que achava que aquela visita dele
para me fazer aquela pergunta não servia para nada, ele não tinha como saber se o que eu lhe
respondera era verdade. Lançou-se num discurso em que começou por afirmar que
sabia que eu tinha dito a verdade porque sentia que eu tinha dito a verdade e
continuou por ali fora a falar de magia branca e magia negra, coisas sem nexo
nenhum (nem mesmo no universo da magia) e que às tantas já iam na prática de
sexo tântrico que dizia ter com a mulher. Eu continuava entre o preocupado e o
divertido e a pensar como ia livrar-me dele
quando fui salva pelo telefone. Era um amigo meu a dizer que estava ali
perto e a perguntar se podia passar lá por casa. Eu disse que sim, o meu
vizinho “nuts” percebeu que eu ia receber alguém e despediu-se e foi embora.
Alguns dias depois, mais ou menos pela mesma hora, eu estava a ler, ele voltou a tocar-me à campainha. Quando abri disse-me que só
tinha vindo saber se eu estava bem porque me tinha ouvido gritar. Respondi-lhe
que não tinha gritado, que estava tudo bem, agradeci e despachei-o. Mas fiquei mesmo preocupada com a loucura do
homem. Porque nem eu tinha gritado nem ninguém tinha gritado na vizinhança, eu
estava a ler com a casa em completo silêncio, sem música nem TV ligadas, se
alguém tivesse gritado algures na vizinhança eu também teria ouvido. E eu não
tinha ouvido grito algum, nada, ninguém tinha gritado.
Mais uns dias passados, 4 da manhã, sou acordada pela campainha da minha porta a
tocar “a fogo”. Levantei-me assarapantada, vesti qualquer coisa rapidamente e
fui à porta. Era a polícia acompanhada pelo vizinho. Abri, convencida de que
algo de grave estava a acontecer no prédio. Os polícias, mal eu abri a porta
devem ter logo percebido que o vizinho não regulava bem. Tinha sido ele a
chamá-los porque eu estava a ameaçá-lo de morte. Respondi-lhes que, como com
certeza já tinham percebido, eu estava a dormir e não a ameaçar ninguém e,
claro, eles pediram desculpa e foram embora.
Voltei a dormir e quando acordei de manhã lembrei-me da
cena. Mas achei-a tão “fora” que estive uns bons minutos sem conseguir ter a
certeza se tinha acontecido ou se eu tinha sonhado , “É tão real... aconteceu
mesmo”, “Não, não pode ser, devo ter sonhado”, “Mas é mesmo real, acho que
aconteceu”, “Eu ando preocupada com o vizinho se calhar sonhei”. Fiquei certa
de que era real, tinha acontecido, quando reparei que tinha os óculos ali ao pé
da cama. Uso lentes de contacto e só costumo usar os óculos desde que me
levanto até sair para o trabalho e, por isso, o sítio dos óculos é na casa de
banho, onde os coloco depois de lavar a cara ao levantar-me, e os retiro quando
coloco as lentes antes de sair. Portanto ter os óculos ao lado da cama era
sinal de que os tinha usado durante a noite e a única explicação para isso era
a cena ter sido real e não um sonho pois não sou sonâmbula. Fiquei FURIOSA!!! O
homem era de certeza maluco e eu não estava para o aturar e tinha de lhe dar um
basta. Quando saí de casa parei no andar de baixo e toquei mas ninguém me
atendeu. Fui trabalhar e ao fim do dia estava ainda mais furiosa com o assunto
do que de manhã. Voltei a tocar no andar de baixo quando regressei a casa. Ele
respondeu-me de dentro de casa, disse que no momento não podia abrir, eu
identifiquei-me e disse que queria falar com ele e ele disse que logo que
pudesse ia a minha casa. Apareceu uns minutos depois. Muito simpático, todo
sorrisos “Quer falar comigo aqui na sua casa ou quer vir à minha?”. Respondi-lhe:
“Nem uma coisa, nem outra. Falamos aqui mesmo à porta pois o que tenho para lhe
dizer é curto. O senhor já anda a aborrecer-me há muito tempo, foi a história
da magia negra, depois foi a história do grito, mas ontem ultrapassou todos os
limites com a cena das ameaças de morte às 4 da manhã. Portanto fica avisado,
não vem mais tocar-me à porta por razão alguma pois se vier sou eu quem chama a
polícia para dar queixa de si. Adeus.” E fechei a porta.
Ele não voltou a aparecer à minha porta. Passado pouco tempo
ausentou-se por longos dias. Quando voltou não saía para trabalhar e andava
muitas vezes na rua, para trás e para a frente, descalço, de tronco nu, sujo,
desgrenhado. Algum tempo depois voltou a ausentar-se e durante essa ausência
veio a mulher bater-me à porta. Abri temendo que fosse outra loucura qualquer.
Mas não era. Era sim a explicação – já adivinhada – das loucuras anteriores. Disse-me
que o marido sofria de uma esquizofrenia grave, que estava cada vez pior, que
tinha a casa toda preta de fumo de vela das “magias” dele, que ela já não
aguentava mais e estava a tentar divorciar-se, que o marido não queria o
divórcio e que o psiquiatra que o acompanhava também achava que o divórcio era mau para ele,
e por isso vinha pedir-me para, caso precisasse, eu testemunhar a favor dela
contando as maluqueiras que ele aprontara comigo. Disse-lhe que sim mas –
felizmente – não foi preciso. Ele não voltou a aparecer (suponho que tenha
ficado internado) e alguns meses depois ela e as crianças também se mudaram.
quinta-feira, 15 de maio de 2014
HISTÓRIAS ANTIGAS - Susto na noite
Por cima do andar onde eu vivia, na Av. Afonso III em
Lisboa, havia dois sotãos habitados (99% de certeza ilegais enquanto
habitações, mas isso é outra história). Do meu lado, i.e. mesmo por cima de
mim, morava um rapaz caucasiano, "russoucranianooualgoassim", bem
educado, simpático q.b., sossegado. Do outro lado morava uma rapariga, mistura
caucasiano/africano, de nacionalidade qualquer coisa de língua portuguesa menos brasileira porque não tinha pronúncia brasileira,
que de sossegada, simpática e educada não tinha nada! Era uma bagunça todas as
noites, montes de gente barulhenta num entra e sai, num sobe e desce a
escada , às vezes 2, às vezes 3, 4, 5, 6 vezes. Uma noite, cerca das 23H00
a bagunça escada acima, de um grupo de pessoas, era, nitidamente, pela velocidade, os arfares e as exclamações, de quem ia a fugir de alguma coisa e, simultaneamente, ouvi uma barulheira exaltada na rua. Aproximei-me
de uma das janelas da frente, que estava meio aberta e com a persiana
também meio aberta e um dos homens que vi lá em baixo (eram 2) estava
armado com um trabuco, não percebo nada de armas mas 'macacos me mordam' se
aquilo não era uma caçadeira de canos serrados ou uma 'shotgun' como as da
polícia, e, mal pressentiu um movimento na minha janela - EU - apontou o
trabuco na minha direcção. Com o trabuco a visar-me, aconteceu-me o que só
acontece em situações de grande susto, pensar, em 1 segundo ou menos, uma
quantidade tão grande de coisas que depois não se consegue perceber como foi
possível fazer aquele raciocínio todo em tão pouco tempo. Pensei: “ele não é/está completamente
desnorteado ou já teria rebentado a porta do prédio a tiro e entrado por aí
dentro a dar tiros para todo o lado, eu não sou, certo e seguro, a pessoa a
quem ele quer dar um tiro, mas... se ele não me vir bem, ou seja se eu fugir,
pode pensar que sou e, no mínimo, dar uns tiros para a janela e eu ficar com
tudo escaqueirado e, no máximo... pode mesmo rebentar a porta do prédio e mais
a do meu apartamento a tiros e ainda me dar um tiro a mim, por engano, já
dentro da minha casa... O melhor é mostrar-me!” E foi o que fiz, abri a persiana e a janela na
totalidade e mostrei-me. Resultou! Mal me mostrei ele deixou de visar a minha
janela e apontou o trabuco para o chão. Voltei para dentro, fechei a
janela na totalidade e, claro! fui telefonar para o 112 para mandarem a
polícia. Estava eu a pegar o telefone e o caramelo deu 4 tiros (tiraços!) para
o ar. Chamei a polícia via 112 sem me identificar, só localizando a ocorrência.
E, obviamente, não voltei a ir espreitar para a rua, o filme era
violento demais para o meu gosto... Passado um bocado, cerca de meia-hora,
ouvi uma nova barulheira na escada e aí fui espreitar, de cusca mesmo,
pelo óculo da porta. Era a polícia que foi para o andar de cima falar com a dita
cuja fulana e seus acompanhantes. E, cá para mim, ela contou-lhes uma
semi-tanga pois ouvi-a dizer que os gajos (dos tiros) eram pretos e eles de
pretos, se tinham alguma coisa, era bem menos do que ela própria, eram morenos
mas não eram africanos, eram ciganos, ou, eventualmente mestiços como ela mas mais
claros do que ela. Gostei de saber que ela própria tinha chamado a polícia. Mesmo
contando-lhes uma semi-tanga, pelo menos estava com medo. E o facto é que desde
aí até ter-se mudado (uns meses antes de eu própria ter mudado) a rapariga
sossegou e não houve mais bagunças nocturnas.
terça-feira, 29 de abril de 2014
HISTÓRIAS ANTIGAS - Quando a verdade parece mentira
Eu
estava pronta para sair para o trabalho quando decidi trocar as calças que
tinha vestidas por outras. Com a pressa de fazer a troca desapertei e baixei as
calças e sentei-me na cama puxando-as para as despir sem descalçar os botins
que tinha calçados. Estava tudo a correr bem quando as calças, já meio
despidas, encravaram nos botins e ficaram encravadas, completamente encravadas.
Não conseguia acabar de as despir e também não conseguia voltar a vesti-las
para descalçar os botins e voltar a despi-las. Puxei para baixo, puxei para
cima, puxei para baixo, puxei para cima e nada. As calças não se moviam um
milímetro nem para um lado nem para outro. Depois de longos minutos a suar as
estopinhas em esforços vãos para fazer as calças deslizarem ou para um lado ou
para outro, concluí que tinha de arranjar outra solução. A mais óbvia era ir
buscar uma tesoura e cortar as calças. Mas não era fácil, tinha de me deslocar
para ir buscar a tesoura, o que com os pés encravados dentro de umas calças,
meia perna vestida, meia perna despida, era uma tarefa difícil e também não me apetecia nada fazer em
farrapos umas óptimas calças. Já exasperada, lembrei-me de uma outra solução para conseguir despir o raio das calças, forçar a mão por dentro das pernas das
calças para abrir o fecho dos botins e puxar depois as calças juntamente com os
botins, despindo as calças e descalçando os botins em simultâneo. Com mais
algum esforço e bastante força para conseguir enfiar a mão entre a perna das calças e o
botim lá consegui abrir um fecho e depois o outro. E finalmente consegui despir
as calças descalçando os botins ao mesmo tempo. Vesti as outras calças, voltei
a calçar os botins, fui refrescar-me do esforço e saí para ir para o trabalho.
Mas com toda esta cena estava irremediavelmente atrasada. Cheguei ao trabalho
40 minutos depois da hora a que devia ter chegado. Fui pedir desculpa do atraso
e justificá-lo. E disse a verdade. Mas as caras de dúvida que recebi em troca
fizeram-me perceber que a minha história parecia uma mentira parva inventada
para não dizer a verdadeira razão do meu atraso. E que mais valia eu ter mesmo
inventado uma mentira qualquer menos parva do que a história verdadeira do que
me acontecera, tão parva e tão ridícula que parecia uma mentira esfarrapada.
sábado, 16 de novembro de 2013
HISTÓRIAS ANTIGAS - O distraído
Pelos meus 19 anos tive um namorado, da mesma idade, que era músico
e que fazia jus ao estereótipo do artista “aéreo”, distraído. As histórias que
se seguem, que lembrei recentemente por causa duma conversa com um amigo, foram
protagonizadas por ele e ainda hoje me fazem rir.
Eu estava em casa do meu namorado
e ia lá jantar. Ele era o “patriarca” da família, vivia com a mãe, a irmã e a
avó e nunca fazia nadica de nada em
casa, mas nesse dia, dada a minha presença e instado por todo o mulherio da
família, foi ele quem pôs a mesa. O menu era carne assada com puré de batata.
Servi-me eu, com a primazia de visita, serviu-se a avó, serviu-se a mãe,
serviu-se a irmã e ficámos todas à espera que ele se servisse para
começarmos a comer. Ele serviu-se com mil cuidados, umas colheres de puré
fazendo um monte no meio do qual abriu uma cova, umas fatias de carne, e umas
generosas colheradas do molho da carne que despejou na cova do monte de puré.
Nesse momento todos observámos com estranheza o molho castanho a alastrar pela
toalha fazendo uma nódoa gigante à volta do prato. Foi então que percebemos que
não havia prato e que ele se tinha servido com mil cuidados para a toalha à sua
frente. Os pratos usados lá em casa eram de vidro transparente e liso e ele
esquecera-se de colocar prato no lugar dele e, com a sua “cabeça no ar”,
conseguira servir-se sem reparar que estava a colocar a comida na toalha e não
no prato. E fê-lo com tal naturalidade e convicção que também nenhuma de nós
reparou que ele não tinha prato. Apesar da porcaria que o incidente causou e de
termos sido obrigados a levantar e voltar a pôr a mesa antes de começarmos a
jantar o absurdo da situação foi tão cómico que só deu para rir.
Uma tarde, depois do almoço, eu e o meu namorado, ligeiramente “mocados” com um
charrito que tinhamos fumado pelo caminho, entrámos no café para tomar a bica. O
café estava completamente cheio com montes de pessoas em cada mesa, mas na mesa
mais ao fundo, num cantinho, sózinho com os seus livros e papelada, a estudar,
estava o namorado da irmã dele, um super atinadinho e arrumadinho aluno de
direito e militante da UEC. Fomos perguntar se podíamos sentar-nos lá para
tomar o café. Ele ficou um bocado incomodado mas a nossa relação com ele era
cordial e, portanto, aguentou-nos, afastando a papelada para nos dar espaço,
embora com um sorriso um bocado amarelo. Pedimos os cafés e copos de água e,
assim que o empregado os colocou na mesa, o meu namorado em um, dois, três, deu
um piparote num dos copos de água que tombou encharcando a papelada e os livros do
arrumadinho. Como não bastasse, com a atrapalhação de remediar a asneira e na
tentativa de salvar a papelada do banho, levantou-se de rompante deixando cair
o cigarro aceso que tinha na mão para dentro da pasta do arrumadinho que
estava, aberta, no chão ao lado da mesa. Nesta altura dos acontecimentos eu, que
estava a tentar controlar o riso para não irritar (mais) o arrumadinho, explodi
em gargalhadas, num ataque de riso incontrolável, pondo toda a gente a olhar
para nós e a rir contagiada pelo meu riso. O meu namorado, que também já não
conseguia controlar o riso, lá conseguiu apanhar o cigarro antes de causar um incêndio
a seguir à inundação. E o coitado do arrumadinho, cujo sorriso cordial passara
de amarelo a verde no meio da gargalhada geral que estrondeava por todo o café,
arrumou tudo dentro da pasta e fechou a dita cuja ficando à espera que nós
bebêssemos os cafés e fôssemos embora para retomar a sessão de estudo.
sábado, 15 de junho de 2013
HISTÓRIAS ANTIGAS - Sustos afro-aéreos
Preâmbulo: eu tinha sempre evitado viajar de avião porque tinha medo, um medo irracional
já que nunca tinha experimentado. Até que um dia tive a oportunidade de ir
passar férias a Moçambique, tinha companhia e tinha alojamento gratuito. Como
sempre tinha tido curiosidade de conhecer África, decidi esquecer o medo de
andar de avião e fui fazer o meu baptismo de vôo em grande, uma viagem
intercontinental de 12 horas de Lisboa a Maputo. Correu bem, não enjoei, não
tive sequer entupimento dos ouvidos pela pressão da altitude, o vôo feito com a LAM
(Linhas Aéreas de Moçambique) foi tranquilo, sem grandes turbulências nem poços
de ar e a aterragem foi perfeita, tirando a pequena apreensão quando o avião
decola e aterra (que acho que toda a gente sente) não tive medo nenhum.
O
plano das férias incluía, além da estadia em Maputo, uma ida a Joanesburgo de
autocarro e uma ida ao arquipélago de Bazaruto... de... avião. Já baptizada
pela viagem de Lisboa a Maputo, embarquei sem temores no aviãozinho perereca de
15 lugares que fazia a ligação de Maputo a Bazaruto. A mesma apreensão na
decolagem e na aterragem, esta a rasar o oceano que, embora sendo o lindíssimo
Índico, aumentava a apreensão, mas nada a dizer da viagem de uma hora e tal, correu
bem, não tive medo. Depois de uns dias em Bazaruto, na ilha do mesmo nome,
voltei a embarcar no aviãozinho para regressar a Maputo. Tinham saído em
Bazaruto passageiros que vinham de Maputo e nós que iamos para Maputo
completámos a lotação juntando-nos aos passageiros também provenientes de
Maputo que iam ficar noutra ilha do arquipélago, Banguerra, onde o avião ia
escalar antes do regresso a Maputo. Então o avião começa a acelerar pela pista
(de terra batida e erva), acelera, acelera, acelera, sem nunca levantar as
rodas do chão, trava a fundo no final da pista, volta para trás, volta a
arrancar em aceleração máxima, acelera, acelera, acelera sem nunca levantar as
rodas do chão, trava a fundo no fim da pista, volta para trás, volta a
acelerar. À 4ª tentativa, já com todos os passageiros a suar em bica do calor e
do susto, finalmente levanta vôo. E segue rasando o Índico até Banguerra onde
ia deixar os restantes passageiros vindos de Maputo e recolher outros tantos
que iam regressar a Maputo. Aterra sem problema, saem passageiros e entram
outros tantos. E repete-se o susto da decolagem, acelera, acelera, acelera, trava
a fundo no final da pista, volta para trás, acelera de novo, volta a não
levantar, volta a travar, não levanta nem à 4ª tentativa. Então a tripulação
(dois pilotos e uma hospedeira) pede para os passageiros que tinham entrado ali
em Banguerra sairem, diz que vai deixar os outros (onde eu me incluía) a Vilanculos
e que volta para buscá-los e voltar a Vilanculos embarcar toda a gente. Só com
metade dos passageiros o avião levantou à primeira tentativa. Supostamente rumo
a Vilanculos que fica no continente. Mas de repente começa a baixar na direcção de outra ilha do arquipélago. Eu pensei – e pelo pânico em que muita gente já
estava acho que todos os passageiros pensaram o mesmo – que íamos aterrar no
meio do mato, nas dunas, numa praia, por o avião estar com problemas. Mas não,
aterrámos suavemente numa pista de betão da ilha de
Magaruque, onde, tal como nas outras de onde vínhamos, havia um alojamento
turístico (um Lodge como, por influência Sul-africana, chamam em Moçambique).
Desembarcámos para o avião ir buscar os outros passageiros que tinham ficado em
Banguerra. Eu fiquei na beira da pista a olhar o avião, queria ter a certeza de
que ia levantar sem problemas antes de voltar a enfiar-me nele quando
regressasse para nos buscar e rumar a Maputo. Levantou à primeira, sem qualquer
problema. Mais aliviada viro-me para caminhar até ao ‘lodge’ que estava a poucos metros nas minhas costas e para meu
espanto reparo que estou sózinha, nenhum dos meus companheiros de viagem, nem
sequer a amiga com quem eu estava, tinha tido a mesma preocupação que eu.
Tinham corrido todos logo para o ‘lodge’, onde andavam entre o bar e a lojinha
de recordações, a ter ataques consumistas, a comer, a beber, a comprar
coisas. A minha amiga insistia para eu pelo menos
beber uma cerveja, de que eu gosto muito mas que era a última coisa que me apetecia
fazer naquele momento, até porque me aguardava uma hora e picos dentro de um
aviãozinho sem casa de banho. Concluí que toda a gente estava muito mais descontrolada com a situação do que eu e que o ataque consumista que estavam a ter
era a maneira de compensarem o stress em que estavam. Não comi, nem bebi, nem comprei nada,
fiquei a vê-los comer, beber e comprar, fumei uns cigarros, e fui olhando o céu
à espera do regresso do avião que também queria ver aterrar. O avião regressou,
fui vê-lo aterrar, aterrou tranquilamente sem problemas. Entretanto os meus companheiros de viagem vieram também para
a pista e pararam todos atrás de mim, a hospedeira abriu a porta e baixou a escada e nós nada, ninguém se mexeu.
Ela perguntou “Então? Não querem regressar a Maputo?”, eu respondi “Não sei se
queremos. Isso vai voar até Maputo ou vai ficar pelo caminho?”, ela riu-se
“Claro que vai voar até Maputo, não há problema nenhum.” Embora meio duvidosos,
lá embarcámos. E, de facto, o avião levantou à primeira tentativa e o vôo até
Maputo e a aterragem em Maputo foram totalmente tranquilos, embora algumas pessoas se tenham sentido mal pois já tinham tido tanto medo que já nada os tranquilizava enquanto estivessem dentro daquele avião. Já no aeroporto, quando estava a apanhar a bagagem, vi
a tripulação e fui falar com eles. Só então
percebi o que tinha acontecido (e que se eles tivessem explicado na altura
tinha reduzido pelo menos 90% o susto dos passageiros), o dia estava
extraordinariamente quente, na ordem dos 40º, e isso aliado ao atrito das rodas
do avião na terra e erva seca fazia com que o avião tivesse dificuldade em
levantar daquelas pistas estando com a carga máxima. Duma pista de betão já
levantava sem problema. Por isso tinham decidido ir a Vilanculos. Mas como ao aproximarem-se de Magaruque se tinham lembrado de que ali também havia uma pista de betão
tinham decidido aterrar lá pois era muito mais perto de Banguerra do que Vilanculos.
No
ano seguinte voltei a Moçambique. A amiga com quem tinha lá estado de férias
tinha entretanto ido trabalhar temporariamente para lá e portanto eu tinha
novamente alojamento gratuito, desta vez no norte do país, em Pemba. Por essa
altura eu já era “pro” em viagens de avião, além dos vôos Lisboa-Maputo-Lisboa e da aventura do vôo Maputo-Bazaruto-Maputo do ano anterior, já tinha
aproveitado o ter perdido o medo de aviões e tinha ido a Inglaterra. Foi portanto
com o maior à vontade que embarquei sózinha no vôo para Maputo e cheguei a
Maputo sem nenhum percalço depois de mais uma viagem de 12 horas. E três ou
quatro dias depois embarquei num vôo para Pemba. Nada de aviãozinho perereca, Moçambique é muito grande e a
distância de Maputo a Pemba é mais ou menos a mesma de Lisboa a Berlim, portanto
o avião era um normalíssimo avião de médio curso. À excepção de mim própria os
passageiros eram todos Moçambicanos com todo o ar de habituados àquela viagem.
O avião decolou na boa, voou até Nampula na boa, aterrou em Nampula na boa e
levantou de Nampula na boa. No entanto à chegada a Pemba a coisa complicou-se.
O avião fazia-se à pista e quando estava quase a aterrar subia de novo, dava
uma voltas e voltava a fazer-se à pista e voltava a levantar e a dar umas
voltas e a fazer-se à pista e isto foi-se repetindo até, finalmente, à 6ª
tentativa ter aterrado. Apesar de ser uma situação um bocadinho assustadora...,
não tive realmente medo, já tinha a experiência das tripulações não darem explicações aos
passageiros e todos os meus companheiros de viagem estavam com o ar mais tranquilo do
mundo, isto aliado a termos aterrado e levantado em Nampula pouco tempo antes sem
qualquer problema, fez com que eu ficasse apenas um pouco mais apreensiva do que numa aterragem normal e muito curiosa sobre a razão
daquelas várias tentativas de aterragem. Que mais uma vez esclareci no
aeroporto indo falar com a tripulação quando estava à espera da bagagem.
Aterrar em Pemba é mesmo assim, é uma zona de ventos fortes e cruzados pelo que
uma aterragem à primeira é praticamente impossível.
E
então, novamente com a mesma amiga que já tinha entretanto regressado,
terminado o trabalho em Pemba, fui a São Tomé. Vôo tranquilo de Lisboa até lá,
só oito horas de viagem em vez das doze para Maputo, aterragem um bocadinho
assustadora porque o extremo da pista do aeroporto é mesmo em cima do mar, mas
o avião aterrou sem nenhum problema. Na programação que tínhamos feito para as
férias estava uma ida à Ilha do Príncipe, de avião, claro. Depois de dois dias a ir ao
aeroporto e voltar para trás porque não havia vôo por causa das trovoadas, lá
embarcámos. Noutro aviãozinho perereca, das linhas aéreas de São Tomé. A
decolagem foi tranquila mas a meio da viagem, sobre o mar entre as duas ilhas, apanhámos uma
trovoada gigantesca e apanhar uma trovoada gigantesca num aviãozinho perereca é
gigantescamente assustador (já tinha apanhado por essa altura e já voltei a
apanhar depois disso trovoadas a aterrar em Heathrow/Londres mas dentro de um
avião grande e... não tem comparação). O aviãozinho saltava, pulava, estrondeava,
abanava, chocalhava, descia abruptamente, subia outra vez, e pelas janelinhas só se via negritude e relâmpagos, enfim, de SUSTO mesmo. Os passageiros, alem de
mim e da minha amiga, eram são tomenses e ninguém entrou em pânico embora toda a gente tenha ficado, obviamente, muito assustada. Só houve
uma coitada duma passageira, que estava a viajar de avião pela primeira vez
para ir visitar uns parentes ao Príncipe, que apesar de não ter entrado em pânico ficou tão aterrorizada que a cara dela, que era negra, ficou branca, a sério, eu nem imaginava que fosse possível porque a côr da pele é dada pela melanina, o pigmento da pele, mas é verdade, apesar de ser negra e bastante escura com o medo nem a melanina resistiu à falta de irrigação sanguínea e ficou tão pálida, tão pálida, tão pálida, que
ficou branca, literalmente. Eu concentrei a minha atenção nos pilotos (o avião
perereca não tinha cabine, os pilotos eram visíveis pelos passageiros) porque
pensei que se/enquanto eles não entrassem em pânico devíamos estar safos. Eles não
panicaram, apenas estavam hiper concentrados e em esforço a levar o avião pelo meio da
tempestade. E levaram, e pouco depois, já sem trovoada, fomos compensados pela visão maravilhosa da verde ilha do Príncipe, (menos a pobre passageira de primeira viagem que embora já tivesse recuperado a côr se recusou a tirar os olhos do chão enquanto o avião não aterrou, e suspeito que ficou a viver no Príncipe com os parentes para não voltar a entrar num avião) onde aterrámos sãos e salvos. Mas, à
cautela, no dia em que fui de novo embarcar no perereca para regressar a São
Tomé, antes de entrar no avião fui perguntar à tripulação se não corríamos o
risco de apanhar outra trovoada (se corrêssemos eu preferia ficar mais uns dias no Príncipe até ter um vôo num dia sem trovoadas). Garantiram que não. E garantiram bem,o vôo de regresso a São Tomé foi completamente tranquilo.
domingo, 19 de maio de 2013
BANALIDADES - Lisboa é dos pombos
Há
tantos, tantos, tantos pombos em Lisboa que já não se pode dizer “os pombos de
Lisboa” mas sim “Lisboa dos pombos”.
Saí
da casa onde morava antes desta porque todo o telhado e forro do prédio eram
pombais com dezenas, para não dizer centenas, de pombos, e os algeroz estavam permanentemente
entupidos por ninhos e fezes, causando infiltrações de água da chuva no
apartamento onde eu vivia que era um último andar. (E, claro, é preciso
acrescentar, o proprietário do prédio, que era meu senhorio, não estava
minimamente interessado em resolver o problema colocando dispositivos
anti-pombo no telhado).
Mas os problemas com os pombos existem por toda a cidade, acho que só mesmo os
edifícios que tenham dispositivos anti-pombos instalados é que estão a salvo de
entupimentos e infiltrações causados por ninhos e fezes destas aves. O
apartamento onde estou agora não tem esse problema porque não é um último andar,
mas acredito que os últimos andares do prédio tenham, talvez menor do que o do
prédio onde eu vivia, quer pela estrutura do telhado quer porque os residentes
dos últimos andares são proprietários dos apartamentos e terão por isso maior
cuidado na verificação de entupimentos.
Os pombos vivem e nidificam por aqui. Abaixo e acima das janelas a parede
frontal deste prédio tem umas platibandas, de uma ponta à outra do prédio, com
uns 40 cm de largura. Desde que aqui moro que reparei que há pombas que as usam
para dormir e ontem descobri que tinham feito um ninho no cantinho da
platibanda que fica abaixo das janelas do meu apartamento. Ontem só tinha um ovo mas era um ovo enorme. Os dois ovos das pombas que
nidificaram no canteiro inacessível da outra casa (história no ‘post’ Histórias
antigas – Abel e Caim) eram muito mais pequenos, e apesar de um ser maior do que o outro, este é
bem maior do que o maior desses dois. Hoje já tem dois, o novo ovo é um pouco
menor do que o primeiro mas, mesmo assim, maior do que os ovos do Abel e do
Caim. E dado que a platibanda só tem, como já referi, uns 40 cm de largura,
suspeito que os borrachos que nascerem daqueles ovos vão cair à rua muito antes
de saber voar. Ou seja, vai ser mais uma história de borrachos que não chegam a
pombos. Mas, pelo menos, espero que não se repita um assassinato...
![]() |
| o ninho ontem com um ovo |
![]() |
| a mãe (ou o pai) a chocar os ovos |
![]() |
| o ninho hoje já com dois ovos |
segunda-feira, 18 de março de 2013
HISTÓRIAS ANTIGAS - Abel e Caim
(Junho/ Julho 2011)
1º dia
Há borrachos no canteiro inacessivel. Na varanda
fechada da cozinha cá de casa há um canteiro exterior num dos topos que, (por
incompetência de quem fez o trabalho de fechamento da varanda, suponho), é
inacessível pois a janela que dá para esse lado... não abre - devem ter
trocado, na colocação, essa janela com a do outro topo da marquise que dá
para a varanda da sala, que podia perfeitamente não abrir e... abre.
Umas pombas resolveram fazer um ninho num dos cantinhos do
dito canteiro puseram lá dois ovos e andaram a chocá-los. Eu andava a vigiar
para ver quando os ovos se transformavam em borrachos e esta manhã...
bingo!!! por debaixo da pomba já se viam umas penugens ;)) Entretanto ela assustou-se
comigo e voou e lá estavam duas criaturinhas minúsculas e penugentas. Só espero
que não caia nenhuma grande chuvada até terem capacidade de voar ou...
arriscam-se a morrer afogadas porque o canteiro é fundo e fica tipo
"piscina" quando chove a sério porque
tem o escoamento todo entupido. Duvido
que os pais pombo tenham capacidade para tirar de lá os filhotes e eu não tenho
nenhuma, só se partir o vidro ou se chamar os bombeiros...
2º dia
Estou a comprovar, ((: graças às pombas que “pariram” no
canteiro :)) o que há meses atrás li sobre pombas nas pesquisas que fiz na
'net' para descobrir como afastá-las do telhado. Elas dão "de mamar"
aos filhotes. Tanto a fêmea como o macho fabricam no papo um
"clostro" que depois regurgitam e os filhotes "mamam" com o
bico do bico delas. Hoje ainda não consegui ver bem os borrachos, a mãe (ou o
pai) tem estado em cima deles e ainda não se assustou com as minhas
espreitadelas. Se não conseguir ter a pontaria de ir espreitá-los em algum
momento que eles estejam sózinhos (ontem vi-os super bem num momento desses),
lá vou ter de enxotar a pomba-progenitor porque, já agora, que me está a ser
oferecida uma "aula prática de biologia", quero ver a que velocidade
eles crescem, deve ser bastante rápido pois, tanto quanto me lembro do que li, ficam
aptos a deixar o ninho enquanto jovens pombos em cerca de um mês e como
recém-nascidos tinham por aí um décimo do tamanho dos pombos adultos.
3º dia de manhã
Os borrachos já estão um pouquinho maiores mas por enquanto
ainda não dá para perceber como aqueles minúsculos vão ficar do tamanho dos
pais em apenas 1 mês?!?!!?? Principalmente o mais minúsculo já que há um muito
maior do que o outro (como era previsível desde que eram ovos pois um ovo era
muito maior do que o outro). Em alguma parte do processo de crescimento a coisa
vai ter de acelerar, se continuassem ao ritmo destes dois dias... não chegavam
ao tamanho adulto em tão pouco tempo. Também já comprovei que os pais se
revezam dia/noite para chocar os ovos e tomar conta dos filhotes. Embora ambos
os adultos sejam muito vulgares e parecidos e eu não os distinga um do outro, o
que fica de dia (de acordo com o que li, o pai) é muito mais espantadiço
do que o que fica a partir do final da tarde, um atrevido (uma atrevida, ao que
parece) que se está a marimbar para a minha presença.
![]() |
| Esta é a fotografia que ficou menos má (entre a máquina fotográfica e o ninho estava o vidro, velho e sujo, da janela que não abria) |
3º dia à noite
Por incrível que pareça (a mim parece :)) os minúsculos
cresceram a olhos vistos de hoje de manhã para agora, a sério, não ficaram com
o dobro do tamanho mas cresceram o suficiente para se notar, incrível! São uns
bébés super feios, têm penugem amarela mas muito rala, vê-se a pele através
dela, o maior tem a pele toda preta o mais pequeno tem a pele às malhas pretas
e cor de rosa, umas asitas peladas ridículas e uns enormes (para o tamanho deles,
claro!) bicos pretos.
6º dia
Ontem mostrei os borrachos à minha empregada. O comentário
dela foi que eram óptimos para fazer canja :)) Ontem também assisti ao
"render da guarda" do casal de pombos-pais, bicadinhas, arrulhos,
trocam de lugar, o que chegou fica e o que estava vai embora. E hoje,
estranhamente, o pombo adulto que lá está a esta hora é o que
costuma estar de noite, o atrevido que se está a borrifar para a minha
presença. Será que o que li - que o pombo-mãe fica de noite e o pombo-pai fica
de dia não estava 100% correcto, isto é que eles podem fazer alterações de
turno e passar a ficar de dia o que ficava de noite e vice-versa? Quanto aos
borrachos ainda não consegui vê-los hoje porque estão debaixo da mãe (ou do pai
:), só vejo uns pedacinhos deles, não dá para perceber se cresceram.
7º dia
Acho que os borrachos já devem estar quase na adolescência
dos pombos. Os pais já os deixam sózinhos por muiiiiito tempo. O que dá para os
observar bem.
Ainda não estão muito maiores mas estão muito mais
pombos, já abrem os olhos, já têm penas (penitas) nas pontas das asas
que por isso já não estão tão ridículas, os bicos estão ainda maiores e
estão muito mais mexidos, viram e reviram mais vezes, abrem as
asas e catam-se com os bicões.
Eles só ficam mesmo adultos, isto é capazes de se
reproduzir, com seis meses. Portanto quando deixam o ninho devem ser uns
mini-pombos... Ou então os pais vão aumentando o tamanho do ninho, o que não é
difícil pois os ninhos de pombo são apenas uma espécie de muro feito com
pauzinhos numa superfície plana e protegida, no caso o cantinho do canteiro.
Se não acontecer nenhum imprevisto, como morrerem afogados se chover, ou os pais morrerem atropelados e eles morrerem de inanição... veremos!
9º dia
Nos últimos dias não se nota grande desenvolvimento a nível
de tamanho. O desenvolvimento nota-se é a nível de movimentos e da penugem a
transformar-se em penas e da menor presença dos pais, continua sempre lá
um de noite mas durante o dia vão aparecendo ambos, juntos ou separados, mas
não ficam por muito tempo. E os borrachos já saem do ninho, como era
previsível pois o ninho é minúsculo para o tamanho que já têm e, como já disse,
não é uma "casa" é apens um "muro" mal parido :))
10º dia
Os borrachos continuam sem crescer muito mas nota-se a
evolução porque já se equilibram nas patas (no princípio esticavam as patas
alçando o rabo mas não passava disso) e começam a ter penas em vez de penugem,
principalmente o maior que já tem as asas todas cobertas de penas. E continuam
a enroscar-se no ninho para dormir embora quando estão em actividade saiam
do ninho. E já por duas vezes (pontaria) que nas minhas espreitadelas assisti a
uma cena demais, eles alçam o rabo para fora do ninho para cagarem :))
Asseados, não cagam no sítio onde dormem.
12º dia
Os borrachos estão muito maiores do que quando nasceram mas
têm crescido devagarinho, tirando aquele dia em que cresceram a olhos vistos da manhã
para a noite, o crescimento não se nota diariamente. O que se nota é a
substituição da penugem por penas e a destreza de movimentos. Mas estou mesmo
curiosa para ver que tamanho vão ter quando chegar o momento de abandonarem o
ninho, porque a menos que voltem a ter fases de crescimento acelerado... vão
ser muito menores do que um pombo adulto, já têm quase 15 dias, portanto falta
cerca de outro tanto tempo para deixarem o ninho, se não tiverem mais fases de
crescimento acelerado só terão o dobro do tamanho que têm hoje que será de
cerca de metade do tamanho de um pombo adulto.
E há uma coisa muito engraçada: o resultado das
cagadelas deles que, como já contei, são
feitas com o rabo alçado para fora do ninho. O ninho original, um
"muro" de pauzinhos soltos encavalitados, transformou-se num muro de
"betão" armado, ou, mais propriamente, de "cagalhão armado"
pois os pauzinhos ficaram agregados com os cócós :))
18º dia
Esta fase de desenvolvimento das criaturas não é muito
interessante, o que mais se nota é o encorpamento pela substituição, rápida e
progressiva, da penugem por penas, ficando cada vez mais com aspecto de pombos.
Também estão maiores mas principalmente estão mais "cheios" por causa
das penas. De resto passam o dia "espremidos" naquele ninho
minúsculo, meio encostados meio por cima um do outro (e à noite ainda
com a mãe em cima deles :)) quase não se mexem. E continuam a ter os bicos e as
patas pretas característica que eu acho que é de não serem adultos e que, em
algum momento, vai alterar para aquele tom rosado que é
a côr dos bicos e patas de todas as pombas adultas. Eles já têm 18 dias,
já faltam menos de 2 semanas para o momento de deixarem o ninho.
22º dia
O borracho que é maior desde o ovo, e que continua a ser
maior, também se desenvolve mais rapidamente. Já está todo penado com
excepção do papo onde ainda tem uns restos de penugem enquanto o outro ainda
tem toda a cabeça e todo o pescoço penugentos.
E descobri que embora passem muito tempo
sózinhos "espremidos" no ninho a dormir, também fazem umas
actividades, usando o espaço do canteiro à volta do ninho, com ambos os pais ou
um deles ou até sózinhos que suponho que são "treinos" e que
consistem em saltar e correr e dar às asas e dar e receber bicadas. Mas não
consigo assistir a esta actividade senão por 1 segundo já que mal espreito eles
se piram todos, os pais voam dali para fora e os filhos correm a
"espremer-se" no ninho (como se isso valesse de algo, eu não tenho
acesso ao canteiro mas se tivesse... tanto tinha ao "ginásio" como ao
ninho, e se em vez de ser eu fosse uma ave de rapina... bem que os
papava, aquele ninho "muro de cagalhão armado" não os safava :))
E não sei o que lhes vai acontecer se antes de eles voarem
vierem colocar novas janelas na minha marquise. Como a ALP e o pessoal que a
ALP contrata funcionam ao retardador... pode ser que só venham colocar as novas
janelas depois deles terem voado... (a ALP informou-me na 5ª feira que a obra
tinha sido adjudicada e que o homem que cá veio da parte deles dar
orçamento me iria contactar para marcar a vinda). Se vierem antes... logo
se vê, talvez sobrevivam só com um grande susto.
27º dia 9H30
Os borrachos eram Caim e Abel. E Caim já matou Abel. Não sei
que raio se passou mas... à 1H30, hora a que me deitei, espreitei os borrachos
e eles estavam parados um ao lado do outro fora do ninho e nem se mexeram
com a minha espreitadela. Achei estranho estarem fora do ninho e paradões, mas
não se terem assustado comigo atribuí a verem mal e à noite não repararem na
minha presença. Às 7 da manhã acordei com sede e fui à cozinha beber água e
espreitei-os. Estavam "espremidos" no ninho a dormir como de costume.
Às 9H00 quando me levantei... o borracho mais pequeno estava estendido, morto,
com um enorme buraco sanguinolento no lombo e o borracho maior parado,
estático, num cantinho do canteiro (que não o do ninho) com o bico cheio de
sangue, e parece hipnotizado, nem se mexeu com a minha presença e tentei mesmo
assustá-lo sem obter qualquer reacção. Quero ver o que vai acontecer de
seguida... será que foram abandonados pelos pais e o Caim vai ficar ali
especado e morrer também? Ou será que foi um resultado
acidental - e "normal" - de uma luta entre borrachos e o Caim
vai voar dali para fora daqui a uns dias? Vou ter de esperar para
descobrir, o ‘timing’ é de pombo, e entretanto... ESPERO que o cadáver de
Abel não comece a feder...
27º dia 14H30
Saí de casa por volta do meio-dia. Espreitei o canteiro
antes de sair e o borracho Caim continuava no mesmo cantinho mas já não estava
estático, já se movia, deitava, levantava, reagia a ruídos. Quando voltei para
casa, 2 horas e meia depois de ter saído, o Caim tinha sumido! Ou seja, voou!
Esta "aula prática" sobre pombos deixou-me com
dois mistérios, 1º: onde se metem os pombos do tamanho do Caim. Pelos vistos
abandonam o ninho. Mas nunca vi por aí nenhum pombo naquele estágio de desenvolvimento.
Já tinha o corpo todo coberto por penas mas o tamanho ainda era só metade do
tamanho de um pombo adulto; e 2º porque é que o Caim matou
o Abel? Será que era a hora de abandonar o ninho e o Abel (mais pequeno e ainda
com uns resquícios de penugem) não estava preparado e foi por isso que o outro
o matou?
Começo a achar que os borrachos foram abandonados pelos pais
antes do tempo e que a cena do Caim ter morto o Abel teve a ver com isso e que
depois o Caim voou para a morte. No chão junto ao passeio do outro lado da
avenida, mas mesmo em linha recta com o canteiro, está, acho, um cadáver
de borracho. Não consigo ver bem à distância do meu 3º andar mas tenho quase a
certeza. Quando voltar a sair vou lá espreitar para confirmar.
27º dia 18H00
Afinal o cadáver de pombo que está do lado de lá da
avenida é metade de um pombo adulto, está a outra metade logo a seguir.
E em cima do muro do cemitério, mesmo aqui em
frente, está, há horas, um borracho. Tenho a certeza de que é um borracho
pelo tamanho e pelo comportamento, está, como já disse há horas, para trás e
para a frente numa distância de 1 metro em cima do muro, ora dá uns passitos,
ora fica parado em pé, ora se deita, ora se levanta e dá às asas, abre-as,
sacode-as, fecha-as de novo, mas não levanta voo nem sai dali daquele metro de
muro (não, não estive horas a olhar para o pombo, apenas depois de o ter topado
fui espreitá-lo várias vezes e ele sempre está no mesmo sítio). E é parecido
com o Caim. Mas o Caim (: tal como o falecido Abel :) é um pombo dos mais
comuns, não tem nenhum sinal particular, pelo que não posso garantir que aquele
borracho que está, aparentemente um bocado à toa, em cima do muro do cemitério
seja o Caim. Mas é muito provável que seja... Até porque nunca me lembro
de ver um pombo com aquele tamanho e muito menos com aquele comportamento por
aí.
Será que todos os borrachos se fazem à vida assim sózinhos?
E será que matarem-se uns aos outros em lutas é normal? Ou será que aconteceu
mesmo alguma coisa com os pais do Abel e do Caim e os desatinos vieram deles
ficarem orfãos um bocadito antes do momento próprio para deixarem o ninho? Pelo
que eu li eles deixam o ninho com 30 dias e estes só nasceram há 27 dias (e
embora 3 dias não seja nada... em vida de pombo é capaz de ser a diferença
entre um pombo adolescente e um pombo criança), se calhar os pais são os
cadáveres que estão aqui em frente (além do partido ao meio há outro inteiro um
metro abaixo) e eles ficaram, digamos assim, prematuros :))
Pode ser que um dia eu consiga obter mais informação sobre
pombos que responda a estas perguntas...
27º dia 20H00
Era mesmo o Caim que andou horas à toa no muro do
cemitério (se calhar desde o momento em que deixou o meu canteiro, eu é que só
o vi muito tempo depois). Quando finalmente se decidiu a arrancar do muro do
cemitério... voou para a minha varanda onde ficou à toa pousado na balaustrada
e deu para o ver muito bem. Depois voou meio atabalhoadamente para um dos
choupos aqui em frente e só o vi a baixar, baixar, baixar, pelo meio dos ramos
do choupo, presumo que à procura de onde pousar, e deixei de o ver. Não sei se
pousou no choupo ou se foi a baixar até ao chão (dentro do cemitério). Mas acho
mesmo que algo se passou com os pombos-pais e o Caim e o Abel
ficaram sózinhos antes da idade da autonomia, pois de todo não acho
que o Caim esteja preparado para sobreviver sózinho, acho que vai lerpar tal
como o Abel.
Espero que mais nenhuma pomba resolva pôr ovos naquele
canteiro antes da colocação das novas janelas que me permitirão impedi-lo pois
vão ser janela “normais”, ou seja, a janela para o canteiro vai ser de abrir,
vou poder limpar o cadáver do Abel e o ninho de “cagalhão armado” e poder fazer
alguma coisa para afastar de lá as pombas. Para aula prática de biologia já
chegou, agora preciso de aulas teóricas que me expliquem este final inesperado
de “assassinato e autonomia precoce” a que assisti :))
28º dia
O Caim, pelo menos até há bocado, sobreviveu. Pelas 14 e
picos fui dar com ele pousado no muro do canteiro onde jaz o Abel. Enxotei-o.
Para ver como ele se desenrascava. Primeiro teve reacção de borracho, cada vez
que eu agitava a cortina ou batia no vidro dava uns passitos para o lado.
Depois eu resolvi ser drástica e abanei um saco de plástico próximo do canteiro
esticando o braço por fora pela janela frontal da marquise. E ele voou, muito
mais à vontade e mais alto do que ontem, foi dar uma curva por cima do
cemitério e veio aterrar no telhado da marquise do prédio aqui ao lado. Azar!
Estava lá um pombo adulto que pelos vistos se acha dono do pedaço, (tem lá
algum ninho provavelmente), e se atirou ao Caim mal este aterrou obrigando-o a
levantar voo de novo. Mas pousou logo ao lado no telhado daqui do prédio. E lá
ficou por longo tempo. Mais tarde voltei a vê-lo, pousado no alto do candeeiro
da rua aqui em frente. Continua muito borracho embora cada vez mais pombo. O
tamanho ainda é muiiiito menor do que um pombo adulto, o bico continua
preto e sem aquelas protuberâncias brancas que os bicos dos pombos têm e as
patas estão a avermelhar mas ainda não estão da cor das patas de um adulto.
Decididamente ele teve de se fazer à vida antes do tempo próprio, seja porque
os progenitores morreram seja por outro motivo qualquer, e antes de o fazer,
também sei lá porquê, travou uma luta de morte com o irmão (o canteiro
estava cheio de penas sinal de que a morte do Abel foi precedida de uma luta).
Voar consegue e está a melhorar, não sei se também consegue comida... Se sim,
vai safar-se, se não... vai fazer companhia ao Abel. Mas tenho a certeza de que
ele ainda é novo demais para ser autónomo. Ainda hoje andei a reparar na
pombaria e vi por aí algumas pombas nitidamente muito jovens, pelo tamanho e
encorpamento muito menores do que o das pombas mais velhas, mas mesmo assim um
bom bocado maiores do que o Caim, e já
com as protuberâncias brancas no bico e quer o bico quer as patas com o tom
avermelhado usual. Não vi nenhum pombo no ponto de desenvolvimento do Caim além
do próprio Caim :))
30º dia
Não voltei a ver o Caim. E agora mesmo que o veja... não vou
reconhecê-lo pois já deve estar desenvolvido e igual a mais milhentos pombos
jovens que andam por aí. Isto se ele sobreviveu... Achei estranho ele não
voltar a dar a cara (o bico no caso) por aqui pois no meu "curso
teórico" aprendi que eles voltam ao local onde nascem, mas também pode ter
aparecido e eu não ter visto já que não passo 24H por dia de
"atalaia" aos pombos. Mas suspeito que tenha andado por aqui algum
exterminador de pombos porque desde que deixei de ver o Caim também tenho visto
muito menos pombos em geral... Mais um mistério para juntar ao assassinato do
Abel e à autonomia precoce do Caim...
31º dia
Quem com ferros mata... com ferros morre. O final da
história dos borrachos no canteiro encontrei-o hoje: 90% de certeza o Caim
está cadáver, com um buraco nas costas tal como ficou o Abel, na valeta aqui em
frente ao café do r/c (passei lá hoje de manhã a tomar uma bica e
topei com o cadáver do Caim quando saí). Não sei se foi bicado por outro
pombo ou se levou uma panada de um automóvel, mas o certo é que morreu com um
buraco nas costas tal como o que ele fez ao Abel.
Resumo da história: vida de pombo na cidade é difícil, o que
lhes vale é que produzem borrachos, 1 ou 2 de cada vez, cerca de 6 vezes no
ano. Pela amostra do ninho no meu canteiro, 2 borrachos ambos mortos antes de
chegarem a pombos... coitados... a capacidade de sobrevivência é diminuta. Isto
é o ponto de vista dos pombos, claro! O ponto de vista dos governos e moradores
das cidades (eu incluída apesar de até achar as pombas simpáticas) ainda bem
que a sobrevivência é diminuta pois já há muiiiiitos, muiiiiitos pombos a mais,
já são uma praga.
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