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terça-feira, 3 de janeiro de 2017

HISTÓRIAS ANTIGAS - Colegas estranhos - história nº2 do Sr. L

Na casa de banho dos homens da empresa estavam uns armários roupeiro metálicos que tinham sido usados, na época em que a empresa tinha uma indústria a funcionar naquelas instalações, para os funcionários da fábrica guardarem as suas roupas quando vestiam a roupa-farda que usavam para trabalhar. Um dia recebi ordem da administração da empresa para tratar de organizar a mudança dos ditos armários para outro edifício onde iriam ser utilizados com outro fim. Fui à casa de banho dos homens, acompanhada de um colega homem a quem pedi que me antecedesse não fosse eu surpreender alguém nos urinóis (que não me incomodaria mas era provável que incomodasse quem fosse por mim apanhado), ver os ditos armários, para poder depois organizar o seu transporte, e descobri que um deles estava fechado à chave e a chave não estava na fechadura. Indagado o colega que me acompanhava se sabia quem - e para quê - usava aquele armário ele disse-me que era o Sr. L que o usava para guardar uma toalha e mais umas tretas que não faziam falta nenhuma mas que o Sr. L, com as suas manias, achava não só necessárias como tão preciosas que tinham de estar aferrolhadas. Fui falar com o Sr. L que estava no seu posto de trabalho, uma secretária do Departamento Administrativo que funcionava num 'open-space'. Num tom de voz normal e com toda a educação e cordialidade expliquei-lhe que tinha recebido ordens para enviar os armários para outro edifício e pedi-lhe para retirar as coisas dele do armário que estava a usar e deixar a chave na fechadura. Com o ar mais arrogante do mundo respondeu-me, alto e bom som "Tiro as minhas coisas se me apetecer, se não me apetecer não tiro!". Odeio estupidez e arrogância e por isso, também alto e bom som, respondi-lhe "Então vou pôr o assunto de outra maneira: os armários vão ser transportados para o outro edifício conforme as ordens da administração que recebi. Se o Sr. L lhe apetecer tirar as suas coisas e deixar lá a chave seguem todos vazios e com chave na fechadura. Se o Sr. L não lhe apetecer tirar de lá as suas coisas aquele armário é levado fechado, com as suas coisas lá dentro e eu vou informar a administração que é o Sr. L quem tem a chave porque não lhe apeteceu tirar as coisas que lá guarda!" E virei-lhe as costas indo embora mas ainda vi que ele - que era muito branquinho - tinha ficado vermelho que nem um pimento. Quando me virei quase me ia desmanchando a rir porque todos os colegas dele estavam a rir desalmadamente embora de forma mais ou menos disfarçada, o que o deve ter deixado ainda mais vermelho e mais furioso. E, claro!, tirou as tralhas dele do armário e deixou lá a chave, como devia ter aceitado fazer ao meu primeiro pedido.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

HISTÓRIAS ANTIGAS - Colegas estranhos: a I



A primeira vez que a vi nem queria acreditar. Tinha à minha frente uma versão mais feia da Miss Piggy na pessoa de uma mulher da minha idade, à época trinta e picos anos. O cabelo pintado de louro-amarelo, a pele rosada, côr de rosa mesmo, carradas de maquilhagem, umas unhas gigantes pintadas de rosa berrante, uma roupa indescritível de tão cheia de rendas e folhos e brilhantes, e uns sapatos igualmente indescritíveis de tão feios, com um salto agulha de 15 cms. Era a nova secretária de um dos departamentos comerciais da empresa, recomendada por uma irmã do director desse departamento, que tinha sido colega dela noutra empresa, como uma profissional excelente. A excelência enquanto conhecimentos da profissão veio a provar-se mas para ser excelente enquanto profissional faltava-lhe bom senso, não tinha nenhum. Logo no dia a seguir a ter iniciado funções resolveu fazer uma “partidinha” a um dos comerciais do departamento onde trabalhava. Chegando mais cedo do que os comerciais encheu a secretária desse dito cujo de pimenta. Depois dele ter passado o dia todo a espirrar acabou por se perceber que o problema estava na mesa de trabalho dele porque ele deixava de espirrar quando saía de lá e porque outras pessoas espirravam quando se aproximavam de lá. E uma observação atenta detectou a pimenta, às carradonas. Então ela assumiu a autoria da “gracinha” embora ninguém tivesse percebido o porquê. Aparentemente foi uma “praxe” e ter sido aquele colega e não outro foi uma escolha aleatória. Sorte dela que era um fulano tranquilo e boa pessoa e embora tivesse ficado atónito não ficou chateado. Depois de muitas peripécias, que incluíram começar a aparecer de quando em vez com um ou os dois olhos negros que ela alegava terem sido causados por quedas em que batera com a cara, na realidade porque tinha um namorado que lhe dava porrada, decidiu, porque ficou chateada por não lhe darem um aumento que pediu, passar os dias a jogar “solitaire” e não fazer nenhum excepto o que lhe era solicitado directamente pelo próprio director do departamento. E assim decorreram uns 3 ou 4 meses. Os prejudicados eram os comerciais do departamento que não quiseram fazer queixa dela e aguentaram a situação. E fora eles só eu me apercebi do que se estava a passar mas como não tinha nada a ver com o assunto limitei-me a aconselhá-la a não ter aquela atitude, conselho que caiu em saco-rôto. Até que um director de outro departamento comercial, que com frequência passava pelo posto de trabalho dela porque ambos os departamentos partilhavam o mesmo 'open-space', se apercebeu de que ela passava os dias a jogar “solitaire” e disse-o ao director do departamento onde ela trabalhava. Os comerciais foram chamados para confirmar a situação e confirmaram. E a "Miss Piggy" foi despedida. Cerca de um ano e meio depois de ter chegado.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

HISTÓRIAS ANTIGAS - Colegas estranhos: o Sr. L



O Sr. L, funcionário dos serviços administrativos, na época com uns cinquenta e picos anos, era uma pessoa desagradável e muito irritante. Achava-se o máximo, arvorava-se em chefe dos colegas, aos quais passava a vida a “picar os miolos” metendo-se onde não era chamado, e era, de um modo geral, antipático e arrogante para toda a gente. Além destas características que o tornavam 'persona non grata' para toda a gente dentro da empresa, ainda era um fulano cheio de manias, parvas como todas as manias, mas das quais fazia gala pois achando-se o máximo achava também o máximo as suas manias. Um dia, por uma questão estética, a administração trocou as cadeiras do bar da empresa, daquelas vulgares cadeiras de café em plástico côr de laranja, por outras exactamente iguais mas em côr azul forte que ficavam melhor com os tons cinza, branco e amarelo das paredes, portas, balcões e mesas. O Sr. L dedicou meia-hora a experimentar todas as cadeiras para “escolher a mais confortável” para os seus problemas de coluna. E escolhida uma colou-lhe uma etiqueta na parte de baixo do assento. Ficámos então a saber, pelos funcionários do bar, que já nas cadeiras côr de laranja ele tinha feito o mesmo. E decidimos, eu e um grupinho de colegas que detestávamos o homem e adorávamos fazer brincadeiras e pregar partidas, dar-lhe cabo do juízo com as etiquetas até ele desistir. Foi uma semana de gáudio. Com a conivência dos funcionários do bar e das funcionárias da limpeza, para nos contarem as reacções e actos do Sr. L, e para inspeccionar as cadeiras, e para nos darem acesso ao bar quando estava encerrado, começámos a campanha “Irritar o Sr. L”. Primeiro tirámos a etiqueta que ele tinha posto. Ele voltou a experimentar as cadeiras e a etiquetar uma. Nós voltámos a tirar a etiqueta. Ele voltou a experimentar as cadeiras e a etiquetar uma delas. Então nós arranjámos etiquetas iguais e etiquetámos metade das cadeiras do bar exactamente da mesma maneira como ele tinha etiquetado a “sua cadeira”. Aparentemente ele desistiu. Ou então arranjou alguma maneira de identificar a “sua cadeira” que nós não conseguimos descobrir, ou nunca percebeu que a cadeira etiquetada não era uma mas sim metade das cadeiras do bar.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

HISTÓRIAS ANTIGAS - Valentões de treta



A empresa onde eu trabalhava estava a falir e tinha imensas dívidas a fornecedores. Uma manhã apareceram à porta da empresa dois matulões muito mal encarados a exigir o pagamento duma dívida a um despachante. Queriam falar com o proprietário e administrador da empresa. A directora financeira foi falar com eles, mentiu dizendo que o administrador não estava lá, e  conseguiu que eles saíssem das instalações. Mas saíram ameaçando que não iam embora dali e que esperavam o que fosse preciso pelo administrador. À hora de almoço saí para almoçar com um grupo de colegas (já tínhamos combinado ir almoçar em dois grupos, cada um de sua vez, e trazer almoço para o administrador para ele não sair) e fomos olhando à procura dos matulões mal encarados. Apesar de estarmos preocupados com a situação, íamos morrendo de riso quando os topámos, qual filme de espionagem de 3ª categoria, sentados dentro de um carro estacionado, com jornais abertos à frente das caras (suponho que tinham uns buracos nos jornais para controlar a porta da empresa). Quando estávamos a almoçar, num restaurante das proximidades, os matulões apareceram lá. Falaram com o empregado e foram embora. Perguntámos ao empregado, que conhecíamos bem pois íamos àquele restaurante quase todos os dias, o que é que os matulões tinham falado com ele. Tinham perguntado se algum dos homens do nosso grupo era o administrador. Ele disse que não e por isso eles saíram. Durante toda a tarde os meus colegas andaram armados em valentões dizendo ao administrador que se os matulões aparecessem faziam e aconteciam. Só eu fui avisando o administrador que se os matulões aparecessem era a primeira a fugir e a fugir bem rapidamente. Depois de fugir chamava a polícia mas não ia arriscar-me a levar porrada. Alguns de nós fomos saindo, dois a dois, por alguns minutos, para tomar café e controlar os matulões que lá continuavam no carro estacionado com os seus jornais a tapar as caras. Mas ao fim da tarde os meus colegas valentões foram todos saindo e eis senão quando só lá ficámos eu e o administrador. Que como habitualmente, mas com um ar completamente “enfiado” me perguntou “Queres boleia para casa?”, eu respondi “Querer não quero, sair daqui contigo hoje é muito perigoso, mas tudo bem, como os meus colegas valentões já se piraram todos...  eu saio à frente a ver se os matulões ainda estão por aí. Se não estiverem fico à tua espera, se estiverem continuo a andar e chamo a polícia para te tirar daqui.”  Ele concordou e assim combinados, eu saí. Observei cuidadosamente todas as redondezas e nem sinal dos matulões. Fiquei portanto à espera como tínhamos combinado e ele saiu também e deu-me boleia para casa. A situação resolveu-se no dia seguinte com uma reunião com o despachante que tinha enviado os matulões.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

HISTÓRIAS ANTIGAS - Onda de desagradibilidades



Há alturas em que parece que entro numa onda de atrair desagradabilidades. Em 3 dias seguidos: dia 1 - o senhor duma tabacaria onde eu ia imensas vezes deu-me o saco, (que pedi para levar o jornal e o maço de tabaco que tinha comprado por estar com uma mala minúscula onde nenhum deles cabia e ser desconfortável levar o jornal e o maço de tabaco na mão), com modos de contrariado e com um discurso moralista de que “dantes” nem havia sacos e as pessoas levavam os jornais na mão mas que “agora” toda a gente quer sacos para levar os jornais. Não gostei mesmo nada. Porque é uma raridade eu pedir sacos, acho que nem nunca tinha pedido naquela tabacaria, pois normalmente ando com uma mala bem grandona e não peço sacos nem mesmo quando compro um jornal e uma revista e tabaco de enrolar e mortalhas e cigarros duma só vez, pois cabe tudo na minha mala. E  porque ele fez este discurso todo em alta voz , diante de outros clientes e falando para a “geral”. Perdeu uma cliente, decidi e cumpri, não voltei a pôr lá os pés (e já passaram 4 anos). Deve ser “alérgico” a sacos (ou a dar sacos?) mas está a atender clientes tem de aguentar a “alergia” e ficar calado; dia 2 - a senhora dum quiosque, onde também vou imensas vezes, respondeu-me desabridamente quando lhe perguntei, obviamente em tom de brincadeira, se podia “oferecer-lhe” um encarte publicitário que vinha no jornal que estava a comprar-lhe. Disse que também não lhe interessava nada e eu que o pusesse no lixo, apontando-me o contentor (dela) na esquina do prédio em frente, tão longe do quiosque que eu não imaginava lhe pertencesse. Também não gostei. Mas a esta ainda dei o desconto de se ter sentido ofendida por não entender que o meu “oferecer” era a brincar, ou de apenas ser rude e não saber dizer a mesma coisa de uma maneira mais simpática e delicada. Como mais de metade do dia é o marido dela que lá está e é naturalmente mais cordial e simpático do que ela,  continuei a ir lá; dia 3 - levei com o meu vizinho do rés-do-chão que além de ser super chato e desatar a falar à menor oportunidade, é mentiroso e má língua, odeia a senhora que limpa a escada, e em apenas  2 ou 3 minutos que durou a conversa, porque eu ia-lhe dando atenção mas sempre em andamento a afastar-me dele, conseguiu dizer duas mentiras e ainda falar mal da senhora da limpeza, que é Cabo-Verdiana, referindo-a como “a preta”.  Muito desagradável mesmo. Só não lhe disse que a senhora tem nome e que ele é racista, além de mentiroso, porque eu não lhe dizia praticamente nada além de bom dia, boa tarde, até amanhã, porque não queria dar-lhe confiança, apenas lhe respondia o mínimo dos mínimos para não ser mal-educada. (Deste livrei-me  quando mudei de casa embora ainda o veja de vez em quando, na rua, porque não mudei para muito longe).

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

HISTÓRIAS ANTIGAS - A "fera" à solta



No bairro onde morei vários anos em Paço de Arcos, em dada altura comecei a ouvir histórias sobre pessoas atacadas por um cão boxer albino que os donos deixavam à solta pelo bairro. Ouvi algumas histórias na primeira pessoa, contadas por vítimas do cão, e muitas outras em segunda mão. Reparei num denominador comum estranho em todas aquelas histórias. Nenhuma das vítimas dos ataques do cão tinha sido mordida, as pessoas tinham-se magoado mas por caírem quando corriam a fugir do cão e ele as alcançava e se atirava a elas. Percebi a incongruência no dia em que eu própria tive um encontro imediato de terceiro grau com o dito cão.  Não tenho medo de cães mas, sem dúvida, foi assustador ver aquele cão corpulento a caminhar na minha direcção e a começar a correr desenfreadamente para mim  mal me viu. Mas não tendo medo de cães, não entrei em pânico, consegui raciocinar que ele corria mais rápido do que eu e lembrar-me de que ele ainda não tinha mordido ninguém, e não fugi. Pelo contrário, parei, encarei-o e comecei a falar com ele “Pára! Pára! Pára!”, ele foi abrandando a corrida e quando chegou ao pé de mim parou. Continuei a falar com ele, ele começou a abanar a cauda, fiz-lhe umas festinhas na cabeça e depois segui o meu caminho e ele seguiu o dele, nem sequer foi atrás de mim. Resumindo, o cão feroz era apenas um cão jovem e mal-educado que corria para as pessoas para brincar, como as pessoas desatavam a correr fugindo dele ele ia atrás e, claro, acabava por as alcançar e atirava-se a elas deitando-as ao chão. Depois ia embora tal como fez comigo. Não voltei a encontrá-lo até porque as vítimas conseguiram fazer queixa dos donos e ele deixou de andar à solta pelo bairro.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

HISTÓRIAS ANTIGAS - Como é possível?!?!?



Um dia, há muitos anos, na rua onde eu morava disparou um alarme dum carro, daqueles tipo buzina de camião, por volta da meia-noite. E uma hora depois ainda continuava a buzinar. Eu queria ir dormir e a primeira coisa que pensei foi chamar a polícia. Mas já farta de ser sempre eu a ter de me chatear a chamar a polícia, apesar de existirem mais milhentos incomodados, e sendo o meu quarto para as traseiras da casa, um pátio privado e oposto à rua onde estava a buzina, decidi fechar totalmente todas as janelas e estores e portas interiores e enfiar uma almofada em cima da cabeça, medidas que eliminaram para mim o barulhão do alarme, e deixar a solução do problema para os outros incomodados sem recursos iguais ao meu para resolver o incómodo, os (muitos) vizinhos que tinham os quartos virados para a rua. No dia seguinte de manhã, quando saí no bairro,  fresca e bem dormida, encontrei imensos vizinhos, ensonados e cheios de olheiras, a queixarem-se de dores de cabeça e a lamentarem-se porque não tinham conseguido dormir nada à conta da buzina que, segundo disseram, tinha atroado os ares ininterruptamente até às 7 da manhã. E – como é possível?!?!!? -  nenhum desses, muitos, lamentosos ensonados tinha feito absolutamente nada para tentar parar aquela barulheira.

domingo, 20 de setembro de 2015

HIATÓRIAS ANTIGAS - Vizinho estranho



Morei durante muitos anos em Paço de Arcos. Em dada altura foi morar para o andar debaixo um casal um pouco estranho. Vestiam-se como 'hippies' dos anos 60, apesar de estarmos nos  anos 90 e deles terem no máximo 30 anos de idade, tinham filhos atrás de filhos, quando cruzávamos respondiam ao meu cumprimento sempre com os olhos no chão, ele ausentava-se periodicamente por bastante tempo.

Quando já tinham 4 filhos houve uma noite em que ele me foi tocar à campainha logo depois do jantar, 20H30 mais coisa menos coisa. Cumprimentou-me e disse que precisava falar comigo e eu, parva, embora não conseguindo vislumbrar nenhum assunto, mandei-o entrar. Sentados na minha sala ele começou com uma conversa que eu nem estava a acreditar porque era de loucos. Disse-me que tinha energias negativas em casa e que como se dedicava à magia branca achava que as energias negativas só podiam estar a vir de alguém nas proximidades que se dedicava à magia negra. Como eu recebia muitas pessoas achava que era eu que fazia sessões de magia negra e que era daí que iam as energias negativas para a casa dele. Entre o preocupada por estar sózinha, em minha casa, com uma pessoa mentalmente desequilibrada e o perdida de riso com a história, lá lhe respondi que não fazia magia de espécie nenhuma e que as pessoas que recebia em casa eram simples amigos que vinham jantar, conversar, tomar um café. Mas não resisti a acrescentar que achava que aquela visita dele para me fazer aquela pergunta não servia para nada,  ele não tinha como saber se o que eu lhe respondera era verdade. Lançou-se num discurso em que começou por afirmar que sabia que eu tinha dito a verdade porque sentia que eu tinha dito a verdade e continuou por ali fora a falar de magia branca e magia negra, coisas sem nexo nenhum (nem mesmo no universo da magia) e que às tantas já iam na prática de sexo tântrico que dizia ter com a mulher. Eu continuava entre o preocupado e o divertido e a pensar como ia livrar-me dele  quando fui salva pelo telefone. Era um amigo meu a dizer que estava ali perto e a perguntar se podia passar lá por casa. Eu disse que sim, o meu vizinho “nuts” percebeu que eu ia receber alguém e despediu-se e foi embora.

Alguns dias depois, mais ou menos pela mesma hora, eu estava  a ler, ele voltou a tocar-me à campainha. Quando abri disse-me que só tinha vindo saber se eu estava bem porque me tinha ouvido gritar. Respondi-lhe que não tinha gritado, que estava tudo bem, agradeci e despachei-o. Mas  fiquei mesmo preocupada com a loucura do homem. Porque nem eu tinha gritado nem ninguém tinha gritado na vizinhança, eu estava a ler com a casa em completo silêncio, sem música nem TV ligadas, se alguém tivesse gritado algures na vizinhança eu também teria ouvido. E eu não tinha ouvido grito algum, nada, ninguém tinha gritado.

Mais uns dias passados, 4 da manhã,  sou acordada pela campainha da minha porta a tocar “a fogo”. Levantei-me assarapantada, vesti qualquer coisa rapidamente e fui à porta. Era a polícia acompanhada pelo vizinho. Abri, convencida de que algo de grave estava a acontecer no prédio. Os polícias, mal eu abri a porta devem ter logo percebido que o vizinho não regulava bem. Tinha sido ele a chamá-los porque eu estava a ameaçá-lo de morte. Respondi-lhes que, como com certeza já tinham percebido, eu estava a dormir e não a ameaçar ninguém e, claro, eles pediram desculpa e foram embora.

Voltei a dormir e quando acordei de manhã lembrei-me da cena. Mas achei-a tão “fora” que estive uns bons minutos sem conseguir ter a certeza se tinha acontecido ou se eu tinha sonhado , “É tão real... aconteceu mesmo”, “Não, não pode ser, devo ter sonhado”, “Mas é mesmo real, acho que aconteceu”, “Eu ando preocupada com o vizinho se calhar sonhei”. Fiquei certa de que era real, tinha acontecido, quando reparei que tinha os óculos ali ao pé da cama. Uso lentes de contacto e só costumo usar os óculos desde que me levanto até sair para o trabalho e, por isso, o sítio dos óculos é na casa de banho, onde os coloco depois de lavar a cara ao levantar-me, e os retiro quando coloco as lentes antes de sair. Portanto ter os óculos ao lado da cama era sinal de que os tinha usado durante a noite e a única explicação para isso era a cena ter sido real e não um sonho pois não sou sonâmbula. Fiquei FURIOSA!!! O homem era de certeza maluco e eu não estava para o aturar e tinha de lhe dar um basta. Quando saí de casa parei no andar de baixo e toquei mas ninguém me atendeu. Fui trabalhar e ao fim do dia estava ainda mais furiosa com o assunto do que de manhã. Voltei a tocar no andar de baixo quando regressei a casa. Ele respondeu-me de dentro de casa, disse que no momento não podia abrir, eu identifiquei-me e disse que queria falar com ele e ele disse que logo que pudesse ia a minha casa. Apareceu uns minutos depois. Muito simpático, todo sorrisos “Quer falar comigo aqui na sua casa ou quer vir à minha?”. Respondi-lhe: “Nem uma coisa, nem outra. Falamos aqui mesmo à porta pois o que tenho para lhe dizer é curto. O senhor já anda a aborrecer-me há muito tempo, foi a história da magia negra, depois foi a história do grito, mas ontem ultrapassou todos os limites com a cena das ameaças de morte às 4 da manhã. Portanto fica avisado, não vem mais tocar-me à porta por razão alguma pois se vier sou eu quem chama a polícia para dar queixa de si. Adeus.” E fechei a porta.

Ele não voltou a aparecer à minha porta. Passado pouco tempo ausentou-se por longos dias. Quando voltou não saía para trabalhar e andava muitas vezes na rua, para trás e para a frente, descalço, de tronco nu, sujo, desgrenhado. Algum tempo depois voltou a ausentar-se e durante essa ausência veio a mulher bater-me à porta. Abri temendo que fosse outra loucura qualquer. Mas não era. Era sim a explicação – já adivinhada – das loucuras anteriores. Disse-me que o marido sofria de uma esquizofrenia grave, que estava cada vez pior, que tinha a casa toda preta de fumo de vela das “magias” dele, que ela já não aguentava mais e estava a tentar divorciar-se, que o marido não queria o divórcio e que o psiquiatra que o acompanhava  também achava que o divórcio era mau para ele, e por isso vinha pedir-me para, caso precisasse, eu testemunhar a favor dela contando as maluqueiras que ele aprontara comigo. Disse-lhe que sim mas – felizmente – não foi preciso. Ele não voltou a aparecer (suponho que tenha ficado internado) e alguns meses depois ela e as crianças também se mudaram.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

HISTÓRIAS ANTIGAS - Susto na noite



Por cima do andar onde eu vivia, na Av. Afonso III em Lisboa, havia dois sotãos habitados (99% de certeza ilegais enquanto habitações, mas isso é outra história). Do meu lado, i.e. mesmo por cima de mim, morava um rapaz caucasiano, "russoucranianooualgoassim", bem educado, simpático q.b., sossegado. Do outro lado morava uma rapariga, mistura caucasiano/africano, de nacionalidade qualquer coisa de língua portuguesa menos brasileira porque não tinha pronúncia brasileira, que de sossegada, simpática e educada não tinha nada! Era uma bagunça todas as noites, montes de gente barulhenta num entra e sai, num sobe e desce a escada , às vezes 2, às vezes 3, 4, 5, 6 vezes. Uma noite, cerca das 23H00 a bagunça escada acima, de um grupo de pessoas, era, nitidamente, pela velocidade, os arfares e as exclamações, de quem ia a fugir de alguma coisa e, simultaneamente, ouvi uma barulheira exaltada na rua. Aproximei-me de uma das janelas da frente, que estava meio aberta e com a persiana também meio aberta e um dos homens que vi lá em baixo (eram 2) estava armado com um trabuco, não percebo nada de armas mas 'macacos me mordam' se aquilo não era uma caçadeira de canos serrados ou uma 'shotgun' como as da polícia, e, mal pressentiu um movimento na minha janela - EU - apontou o trabuco na minha direcção. Com o trabuco a visar-me, aconteceu-me o que só acontece em situações de grande susto, pensar, em 1 segundo ou menos, uma quantidade tão grande de coisas que depois não se consegue perceber como foi possível fazer aquele raciocínio todo em tão pouco tempo. Pensei: “ele não é/está completamente desnorteado ou já teria rebentado a porta do prédio a tiro e entrado por aí dentro a dar tiros para todo o lado, eu não sou, certo e seguro, a pessoa a quem ele quer dar um tiro, mas... se ele não me vir bem, ou seja se eu fugir, pode pensar que sou e, no mínimo, dar uns tiros para a janela e eu ficar com tudo escaqueirado e, no máximo... pode mesmo rebentar a porta do prédio e mais a do meu apartamento a tiros e ainda me dar um tiro a mim, por engano, já dentro da minha casa... O melhor é mostrar-me!”  E foi o que fiz, abri a persiana e a janela na totalidade e mostrei-me. Resultou! Mal me mostrei ele deixou de visar a minha janela e apontou o trabuco para o chão. Voltei para dentro, fechei a janela na totalidade e, claro! fui telefonar para o 112 para mandarem a polícia. Estava eu a pegar o telefone e o caramelo deu 4 tiros (tiraços!) para o ar. Chamei a polícia via 112 sem me identificar, só localizando a ocorrência. E, obviamente, não voltei a ir espreitar para a rua, o filme era violento demais para o meu gosto... Passado um bocado, cerca de meia-hora,  ouvi uma nova barulheira na escada e aí fui espreitar, de cusca mesmo, pelo óculo da porta. Era a polícia que foi para o andar de cima falar com a dita cuja fulana e seus acompanhantes. E, cá para mim, ela contou-lhes uma semi-tanga pois ouvi-a dizer que os gajos (dos tiros) eram pretos e eles de pretos, se tinham alguma coisa, era bem menos do que ela própria, eram morenos mas não eram africanos, eram ciganos, ou, eventualmente mestiços como ela mas mais claros do que ela. Gostei de saber que ela própria tinha chamado a polícia. Mesmo contando-lhes uma semi-tanga, pelo menos estava com medo. E o facto é que desde aí até ter-se mudado (uns meses antes de eu própria ter mudado) a rapariga sossegou e não houve mais bagunças nocturnas.

terça-feira, 29 de abril de 2014

HISTÓRIAS ANTIGAS - Quando a verdade parece mentira



Eu estava pronta para sair para o trabalho quando decidi trocar as calças que tinha vestidas por outras. Com a pressa de fazer a troca desapertei e baixei as calças e sentei-me na cama puxando-as para as despir sem descalçar os botins que tinha calçados. Estava tudo a correr bem quando as calças, já meio despidas, encravaram nos botins e ficaram encravadas, completamente encravadas. Não conseguia acabar de as despir e também não conseguia voltar a vesti-las para descalçar os botins e voltar a despi-las. Puxei para baixo, puxei para cima, puxei para baixo, puxei para cima e nada. As calças não se moviam um milímetro nem para um lado nem para outro. Depois de longos minutos a suar as estopinhas em esforços vãos para fazer as calças deslizarem ou para um lado ou para outro, concluí que tinha de arranjar outra solução. A mais óbvia era ir buscar uma tesoura e cortar as calças. Mas não era fácil, tinha de me deslocar para ir buscar a tesoura, o que com os pés encravados dentro de umas calças, meia perna vestida, meia perna despida, era uma tarefa difícil  e também não me apetecia nada fazer em farrapos umas óptimas calças. Já exasperada, lembrei-me de uma outra solução para conseguir despir o raio das calças, forçar a mão por dentro das pernas das calças para abrir o fecho dos botins e puxar depois as calças juntamente com os botins, despindo as calças e descalçando os botins em simultâneo. Com mais algum esforço e bastante força para conseguir enfiar a mão entre a perna das calças e o botim lá consegui abrir um fecho e depois o outro. E finalmente consegui despir as calças descalçando os botins ao mesmo tempo. Vesti as outras calças, voltei a calçar os botins, fui refrescar-me do esforço e saí para ir para o trabalho. Mas com toda esta cena estava irremediavelmente atrasada. Cheguei ao trabalho 40 minutos depois da hora a que devia ter chegado. Fui pedir desculpa do atraso e justificá-lo. E disse a verdade. Mas as caras de dúvida que recebi em troca fizeram-me perceber que a minha história parecia uma mentira parva inventada para não dizer a verdadeira razão do meu atraso. E que mais valia eu ter mesmo inventado uma mentira qualquer menos parva do que a história verdadeira do que me acontecera, tão parva e tão ridícula que parecia uma mentira esfarrapada.

sábado, 16 de novembro de 2013

HISTÓRIAS ANTIGAS - O distraído




Pelos meus 19 anos tive um namorado, da mesma idade, que era músico e que fazia jus ao estereótipo do artista “aéreo”, distraído. As histórias que se seguem, que lembrei recentemente por causa duma conversa com um amigo, foram protagonizadas por ele e ainda hoje me fazem rir.



Eu estava em casa do meu namorado e ia lá jantar. Ele era o “patriarca” da família, vivia com a mãe, a irmã e a avó e nunca fazia nadica de nada  em casa, mas nesse dia, dada a minha presença e instado por todo o mulherio da família, foi ele quem pôs a mesa. O menu era carne assada com puré de batata. Servi-me eu, com a primazia de visita, serviu-se a avó, serviu-se a mãe, serviu-se a irmã  e ficámos todas à espera que ele se servisse para começarmos a comer. Ele serviu-se com mil cuidados, umas colheres de puré fazendo um monte no meio do qual abriu uma cova, umas fatias de carne, e umas generosas colheradas do molho da carne que despejou na cova do monte de puré. Nesse momento todos observámos com estranheza o molho castanho a alastrar pela toalha fazendo uma nódoa gigante à volta do prato. Foi então que percebemos que não havia prato e que ele se tinha servido com mil cuidados para a toalha à sua frente. Os pratos usados lá em casa eram de vidro transparente e liso e ele esquecera-se de colocar prato no lugar dele e, com a sua “cabeça no ar”, conseguira servir-se sem reparar que estava a colocar a comida na toalha e não no prato. E fê-lo com tal naturalidade e convicção que também nenhuma de nós reparou que ele não tinha prato. Apesar da porcaria que o incidente causou e de termos sido obrigados a levantar e voltar a pôr a mesa antes de começarmos a jantar o absurdo da situação foi tão cómico que só deu para rir.





Uma tarde, depois do almoço, eu e o  meu namorado, ligeiramente “mocados” com um charrito que tinhamos fumado pelo caminho, entrámos no café para tomar a bica. O café estava completamente cheio com montes de pessoas em cada mesa, mas na mesa mais ao fundo, num cantinho, sózinho com os seus livros e papelada, a estudar, estava o namorado da irmã dele, um super atinadinho e arrumadinho aluno de direito e militante da UEC. Fomos perguntar se podíamos sentar-nos lá para tomar o café. Ele ficou um bocado incomodado mas a nossa relação com ele era cordial e, portanto, aguentou-nos, afastando a papelada para nos dar espaço, embora com um sorriso um bocado amarelo. Pedimos os cafés e copos de água e, assim que o empregado os colocou na mesa, o meu namorado em um, dois, três, deu um piparote num dos copos de água que tombou encharcando a papelada e os livros do arrumadinho. Como não bastasse, com a atrapalhação de remediar a asneira e na tentativa de salvar a papelada do banho, levantou-se de rompante deixando cair o cigarro aceso que tinha na mão para dentro da pasta do arrumadinho que estava, aberta, no chão ao lado da mesa. Nesta altura dos acontecimentos eu, que estava a tentar controlar o riso para não irritar (mais) o arrumadinho, explodi em gargalhadas, num ataque de riso incontrolável, pondo toda a gente a olhar para nós e a rir contagiada pelo meu riso. O meu namorado, que também já não conseguia controlar o riso, lá conseguiu apanhar o cigarro antes de causar um incêndio a seguir à inundação. E o coitado do arrumadinho, cujo sorriso cordial passara de amarelo a verde no meio da gargalhada geral que estrondeava por todo o café, arrumou tudo dentro da pasta e fechou a dita cuja ficando à espera que nós bebêssemos os cafés e fôssemos embora para retomar a sessão de estudo.

sábado, 15 de junho de 2013

HISTÓRIAS ANTIGAS - Sustos afro-aéreos



Preâmbulo: eu tinha sempre evitado viajar de avião porque tinha medo, um medo irracional já que nunca tinha experimentado. Até que um dia tive a oportunidade de ir passar férias a Moçambique, tinha companhia e tinha alojamento gratuito. Como sempre tinha tido curiosidade de conhecer África, decidi esquecer o medo de andar de avião e fui fazer o meu baptismo de vôo em grande, uma viagem intercontinental de 12 horas de Lisboa a Maputo. Correu bem, não enjoei, não tive sequer entupimento dos ouvidos pela pressão da altitude, o vôo feito com a LAM (Linhas Aéreas de Moçambique) foi tranquilo, sem grandes turbulências nem poços de ar e a aterragem foi perfeita, tirando a pequena apreensão quando o avião decola e aterra (que acho que toda a gente sente) não tive medo nenhum.

O plano das férias incluía, além da estadia em Maputo, uma ida a Joanesburgo de autocarro e uma ida ao arquipélago de Bazaruto... de... avião. Já baptizada pela viagem de Lisboa a Maputo, embarquei sem temores no aviãozinho perereca de 15 lugares que fazia a ligação de Maputo a Bazaruto. A mesma apreensão na decolagem e na aterragem, esta a rasar o oceano que, embora sendo o lindíssimo Índico, aumentava a apreensão, mas nada a dizer da viagem de uma hora e tal, correu bem, não tive medo. Depois de uns dias em Bazaruto, na ilha do mesmo nome, voltei a embarcar no aviãozinho para regressar a Maputo. Tinham saído em Bazaruto passageiros que vinham de Maputo e nós que iamos para Maputo completámos a lotação juntando-nos aos passageiros também provenientes de Maputo que iam ficar noutra ilha do arquipélago, Banguerra, onde o avião ia escalar antes do regresso a Maputo. Então o avião começa a acelerar pela pista (de terra batida e erva), acelera, acelera, acelera, sem nunca levantar as rodas do chão, trava a fundo no final da pista, volta para trás, volta a arrancar em aceleração máxima, acelera, acelera, acelera sem nunca levantar as rodas do chão, trava a fundo no fim da pista, volta para trás, volta a acelerar. À 4ª tentativa, já com todos os passageiros a suar em bica do calor e do susto, finalmente levanta vôo. E segue rasando o Índico até Banguerra onde ia deixar os restantes passageiros vindos de Maputo e recolher outros tantos que iam regressar a Maputo. Aterra sem problema, saem passageiros e entram outros tantos. E repete-se o susto da decolagem, acelera, acelera, acelera, trava a fundo no final da pista, volta para trás, acelera de novo, volta a não levantar, volta a travar, não levanta nem à 4ª tentativa. Então a tripulação (dois pilotos e uma hospedeira) pede para os passageiros que tinham entrado ali em Banguerra sairem, diz que vai deixar os outros (onde eu me incluía) a Vilanculos e que volta para buscá-los e voltar a Vilanculos embarcar toda a gente. Só com metade dos passageiros o avião levantou à primeira tentativa. Supostamente rumo a Vilanculos que fica no continente. Mas de repente começa a baixar na direcção de outra ilha do arquipélago. Eu pensei – e pelo pânico em que muita gente já estava acho que todos os passageiros pensaram o mesmo – que íamos aterrar no meio do mato, nas dunas, numa praia, por o avião estar com problemas. Mas não, aterrámos suavemente numa pista de betão da ilha de Magaruque, onde, tal como nas outras de onde vínhamos, havia um alojamento turístico (um Lodge como, por influência Sul-africana, chamam em Moçambique). Desembarcámos para o avião ir buscar os outros passageiros que tinham ficado em Banguerra. Eu fiquei na beira da pista a olhar o avião, queria ter a certeza de que ia levantar sem problemas antes de voltar a enfiar-me nele quando regressasse para nos buscar e rumar a Maputo. Levantou à primeira, sem qualquer problema. Mais aliviada viro-me para caminhar até ao ‘lodge’ que estava a poucos metros nas minhas costas e para meu espanto reparo que estou sózinha, nenhum dos meus companheiros de viagem, nem sequer a amiga com quem eu estava, tinha tido a mesma preocupação que eu. Tinham corrido todos logo para o ‘lodge’, onde andavam entre o bar e a lojinha de recordações, a ter ataques consumistas, a comer, a beber, a comprar coisas.  A minha amiga insistia para eu pelo menos beber uma cerveja, de que eu gosto muito mas que era a última coisa que me apetecia fazer naquele momento, até porque me aguardava uma hora e picos dentro de um aviãozinho sem casa de banho. Concluí que toda a gente estava muito mais descontrolada com a situação do que eu e que o ataque consumista que estavam a ter era a maneira de compensarem o stress em que estavam. Não comi, nem bebi, nem comprei nada, fiquei a vê-los comer, beber e comprar, fumei uns cigarros, e fui olhando o céu à espera do regresso do avião que também queria ver aterrar. O avião regressou, fui vê-lo aterrar, aterrou tranquilamente sem problemas. Entretanto os meus companheiros de viagem vieram também para a pista e pararam todos atrás de mim, a hospedeira abriu a porta e baixou a escada e nós nada, ninguém se mexeu. Ela perguntou “Então? Não querem regressar a Maputo?”, eu respondi “Não sei se queremos. Isso vai voar até Maputo ou vai ficar pelo caminho?”, ela riu-se “Claro que vai voar até Maputo, não há problema nenhum.” Embora meio duvidosos, lá embarcámos. E, de facto, o avião levantou à primeira tentativa e o vôo até Maputo e a aterragem em Maputo foram totalmente tranquilos, embora algumas pessoas se tenham sentido mal pois já tinham tido tanto medo que já nada os tranquilizava enquanto estivessem dentro daquele avião. Já no aeroporto, quando estava a apanhar a bagagem, vi a tripulação e fui falar com eles. Só então percebi o que tinha acontecido (e que se eles tivessem explicado na altura tinha reduzido pelo menos 90% o susto dos passageiros), o dia estava extraordinariamente quente, na ordem dos 40º, e isso aliado ao atrito das rodas do avião na terra e erva seca fazia com que o avião tivesse dificuldade em levantar daquelas pistas estando com a carga máxima. Duma pista de betão já levantava sem problema. Por isso tinham decidido ir a Vilanculos. Mas como ao aproximarem-se de Magaruque se tinham lembrado de que ali também havia uma pista de betão tinham decidido aterrar lá pois era muito mais perto de Banguerra do que Vilanculos.

No ano seguinte voltei a Moçambique. A amiga com quem tinha lá estado de férias tinha entretanto ido trabalhar temporariamente para lá e portanto eu tinha novamente alojamento gratuito, desta vez no norte do país, em Pemba. Por essa altura eu já era “pro” em viagens de avião, além dos vôos Lisboa-Maputo-Lisboa  e da aventura do vôo Maputo-Bazaruto-Maputo do ano anterior, já tinha aproveitado o  ter perdido o medo de aviões e tinha ido a Inglaterra. Foi portanto com o maior à vontade que embarquei sózinha no vôo para Maputo e cheguei a Maputo sem nenhum percalço depois de mais uma viagem de 12 horas. E três ou quatro dias depois embarquei num vôo para Pemba. Nada de aviãozinho perereca, Moçambique é muito grande e a distância de Maputo a Pemba é mais ou menos a mesma de Lisboa a Berlim, portanto o avião era um normalíssimo avião de médio curso. À excepção de mim própria os passageiros eram todos Moçambicanos com todo o ar de habituados àquela viagem. O avião decolou na boa, voou até Nampula na boa, aterrou em Nampula na boa e levantou de Nampula na boa. No entanto à chegada a Pemba a coisa complicou-se. O avião fazia-se à pista e quando estava quase a aterrar subia de novo, dava uma voltas e voltava a fazer-se à pista e voltava a levantar e a dar umas voltas e a fazer-se à pista e isto foi-se repetindo até, finalmente, à 6ª tentativa ter aterrado. Apesar de ser uma situação um bocadinho assustadora..., não tive realmente medo, já tinha a experiência das tripulações não darem explicações aos passageiros e todos os meus companheiros de viagem estavam com o ar mais tranquilo do mundo, isto aliado a termos aterrado e levantado em Nampula pouco tempo antes sem qualquer problema, fez com que eu ficasse apenas um pouco mais apreensiva do que numa aterragem normal e muito curiosa sobre a razão daquelas várias tentativas de aterragem. Que mais uma vez esclareci no aeroporto indo falar com a tripulação quando estava à espera da bagagem. Aterrar em Pemba é mesmo assim, é uma zona de ventos fortes e cruzados pelo que uma aterragem à primeira é praticamente impossível.

E então, novamente com a mesma amiga que já tinha entretanto regressado, terminado o trabalho em Pemba, fui a São Tomé. Vôo tranquilo de Lisboa até lá, só oito horas de viagem em vez das doze para Maputo, aterragem um bocadinho assustadora porque o extremo da pista do aeroporto é mesmo em cima do mar, mas o avião aterrou sem nenhum problema. Na programação que tínhamos feito para as férias estava uma ida à Ilha do Príncipe, de avião, claro. Depois de dois dias a ir ao aeroporto e voltar para trás porque não havia vôo por causa das trovoadas, lá embarcámos. Noutro aviãozinho perereca, das linhas aéreas de São Tomé. A decolagem foi tranquila mas a meio da viagem, sobre o mar entre as duas ilhas, apanhámos uma trovoada gigantesca e apanhar uma trovoada gigantesca num aviãozinho perereca é gigantescamente assustador (já tinha apanhado por essa altura e já voltei a apanhar depois disso trovoadas a aterrar em Heathrow/Londres mas dentro de um avião grande e... não tem comparação). O aviãozinho saltava, pulava, estrondeava, abanava, chocalhava, descia abruptamente, subia outra vez, e pelas janelinhas só se via negritude e relâmpagos, enfim, de SUSTO mesmo. Os passageiros, alem de mim e da minha amiga, eram são tomenses e ninguém entrou em pânico embora toda a gente tenha ficado, obviamente, muito assustada. Só houve uma coitada duma passageira, que estava a viajar de avião pela primeira vez para ir visitar uns parentes ao Príncipe, que apesar de não ter entrado em pânico ficou tão aterrorizada que a cara dela, que era negra, ficou branca, a sério, eu nem imaginava que fosse possível porque a côr da pele é dada pela melanina, o pigmento da pele, mas é verdade, apesar de ser negra e bastante escura com o medo nem a melanina resistiu à falta de irrigação sanguínea e ficou tão pálida, tão pálida, tão pálida, que ficou branca, literalmente. Eu concentrei a minha atenção nos pilotos (o avião perereca não tinha cabine, os pilotos eram visíveis pelos passageiros) porque pensei que se/enquanto eles não entrassem em pânico devíamos estar safos. Eles não panicaram, apenas estavam  hiper concentrados e em esforço a levar o avião pelo meio da tempestade. E levaram, e pouco depois, já sem trovoada, fomos compensados pela visão maravilhosa da verde ilha do Príncipe, (menos a pobre passageira de primeira viagem que embora já tivesse recuperado a côr se recusou a tirar os olhos do chão enquanto o avião não aterrou, e suspeito que ficou a viver no Príncipe com os parentes para não voltar a entrar num avião) onde aterrámos sãos e salvos. Mas, à cautela, no dia em que fui de novo embarcar no perereca para regressar a São Tomé, antes de entrar no avião fui perguntar à tripulação se não corríamos o risco de apanhar outra trovoada (se corrêssemos eu preferia ficar mais uns dias no Príncipe até ter um vôo num dia sem trovoadas). Garantiram que não. E garantiram bem,o vôo de regresso a São Tomé foi completamente tranquilo.

domingo, 19 de maio de 2013

BANALIDADES - Lisboa é dos pombos



Há tantos, tantos, tantos pombos em Lisboa que já não se pode dizer “os pombos de Lisboa” mas sim “Lisboa dos pombos”.

Saí da casa onde morava antes desta porque todo o telhado e forro do prédio eram pombais com dezenas, para não dizer centenas, de pombos,  e os algeroz estavam permanentemente entupidos por ninhos e fezes, causando infiltrações de água da chuva no apartamento onde eu vivia que era um último andar. (E, claro, é preciso acrescentar, o proprietário do prédio, que era meu senhorio, não estava minimamente interessado em resolver o problema colocando dispositivos anti-pombo no telhado).

Mas os problemas com os pombos existem por toda a cidade, acho que só mesmo os edifícios que tenham dispositivos anti-pombos instalados é que estão a salvo de entupimentos e infiltrações causados por ninhos e fezes destas aves. O apartamento onde estou agora não tem esse problema porque não é um último andar, mas acredito que os últimos andares do prédio tenham, talvez menor do que o do prédio onde eu vivia, quer pela estrutura do telhado quer porque os residentes dos últimos andares são proprietários dos apartamentos e terão por isso maior cuidado na verificação de entupimentos.

Os pombos vivem e nidificam por aqui. Abaixo e acima das janelas a parede frontal deste prédio tem umas platibandas, de uma ponta à outra do prédio, com uns 40 cm de largura. Desde que aqui moro que reparei que há pombas que as usam para dormir e  ontem descobri que tinham feito um ninho no cantinho da platibanda que fica abaixo das janelas do meu apartamento. Ontem só tinha um ovo mas era um ovo enorme. Os dois ovos das pombas que nidificaram no canteiro inacessível da outra casa (história no ‘post’ Histórias antigas – Abel e Caim) eram muito mais pequenos, e  apesar de um ser maior do que o outro, este é bem maior do que o maior desses dois. Hoje já tem dois, o novo ovo é um pouco menor do que o primeiro mas, mesmo assim, maior do que os ovos do Abel e do Caim. E dado que a platibanda só tem, como já referi, uns 40 cm de largura, suspeito que os borrachos que nascerem daqueles ovos vão cair à rua muito antes de saber voar. Ou seja, vai ser mais uma história de borrachos que não chegam a pombos. Mas, pelo menos, espero que não se repita  um assassinato...

o ninho ontem com um ovo

a mãe (ou o pai) a chocar os ovos

o ninho hoje já com dois ovos

segunda-feira, 18 de março de 2013

HISTÓRIAS ANTIGAS - Abel e Caim



(Junho/ Julho 2011)

1º dia
Há borrachos no canteiro inacessivel. Na varanda fechada da cozinha cá de casa há um canteiro exterior num dos topos que, (por incompetência de quem fez o trabalho de fechamento da varanda, suponho), é inacessível pois a janela que dá para esse lado... não abre - devem ter trocado, na colocação, essa janela com a do outro topo da marquise que dá para a varanda da sala, que podia perfeitamente não abrir e... abre.

Umas pombas resolveram fazer um ninho num dos cantinhos do dito canteiro puseram lá dois ovos e andaram a chocá-los. Eu andava a vigiar para ver quando os ovos se transformavam em borrachos e esta manhã... bingo!!! por debaixo da pomba já se viam umas penugens ;)) Entretanto ela assustou-se comigo e voou e lá estavam duas criaturinhas minúsculas e penugentas. Só espero que não caia nenhuma grande chuvada até terem capacidade de voar ou... arriscam-se a morrer afogadas porque o canteiro é fundo e fica tipo "piscina" quando chove a sério porque  tem  o escoamento todo entupido. Duvido que os pais pombo tenham capacidade para tirar de lá os filhotes e eu não tenho nenhuma, só se partir o vidro ou se chamar os bombeiros...

2º dia
Estou a comprovar, ((: graças às pombas que “pariram” no canteiro :)) o que há meses atrás li sobre pombas nas pesquisas que fiz na 'net' para descobrir como afastá-las do telhado. Elas dão "de mamar" aos filhotes. Tanto a fêmea como o macho fabricam no papo um "clostro" que depois regurgitam e os filhotes "mamam" com o bico do bico delas. Hoje ainda não consegui ver bem os borrachos, a mãe (ou o pai) tem estado em cima deles e ainda não se assustou com as minhas espreitadelas. Se não conseguir ter a pontaria de ir espreitá-los em algum momento que eles estejam sózinhos (ontem vi-os super bem num momento desses), lá vou ter de enxotar a pomba-progenitor porque, já agora, que me está a ser oferecida uma "aula prática de biologia", quero ver a que velocidade eles crescem, deve ser bastante rápido pois, tanto quanto me lembro do que li, ficam aptos a deixar o ninho enquanto jovens pombos em cerca de um mês e como recém-nascidos tinham por aí um décimo do tamanho dos pombos adultos.

3º dia de manhã
Os borrachos já estão um pouquinho maiores mas por enquanto ainda não dá para perceber como aqueles minúsculos vão ficar do tamanho dos pais em apenas 1 mês?!?!!?? Principalmente o mais minúsculo já que há um muito maior do que o outro (como era previsível desde que eram ovos pois um ovo era muito maior do que o outro). Em alguma parte do processo de crescimento a coisa vai ter de acelerar, se continuassem ao ritmo destes dois dias... não chegavam ao tamanho adulto em tão pouco tempo. Também já comprovei que os pais se revezam dia/noite para chocar os ovos e tomar conta dos filhotes. Embora ambos os adultos sejam muito vulgares e parecidos e eu não os distinga um do outro, o que fica de dia (de acordo com o que li, o pai) é muito mais espantadiço do que o que fica a partir do final da tarde, um atrevido (uma atrevida, ao que parece) que se está a marimbar para a minha presença.

Esta é a fotografia que ficou menos má (entre a máquina fotográfica e o ninho estava o vidro, velho e sujo, da janela que não abria)


 3º dia à noite
Por incrível que pareça (a mim parece :)) os minúsculos cresceram a olhos vistos de hoje de manhã para agora, a sério, não ficaram com o dobro do tamanho mas cresceram o suficiente para se notar, incrível! São uns bébés super feios, têm penugem amarela mas muito rala, vê-se a pele através dela, o maior tem a pele toda preta o mais pequeno tem a pele às malhas pretas e cor de rosa, umas asitas peladas ridículas e uns enormes (para o tamanho deles, claro!) bicos pretos.

6º dia
Ontem mostrei os borrachos à minha empregada. O comentário dela foi que eram óptimos para fazer canja :)) Ontem também assisti ao "render da guarda" do casal de pombos-pais, bicadinhas, arrulhos, trocam de lugar, o que chegou fica e o que estava vai embora. E hoje, estranhamente, o pombo adulto que lá está a esta hora é o que costuma estar de noite, o atrevido que se está a borrifar para a minha presença. Será que o que li - que o pombo-mãe fica de noite e o pombo-pai fica de dia não estava 100% correcto, isto é que eles podem fazer alterações de turno e passar a ficar de dia o que ficava de noite e vice-versa? Quanto aos borrachos ainda não consegui vê-los hoje porque estão debaixo da mãe (ou do pai :), só vejo uns pedacinhos deles, não dá para perceber se cresceram.

7º dia
Acho que os borrachos já devem estar quase na adolescência dos pombos. Os pais já os deixam sózinhos por muiiiiito tempo. O que dá para os observar bem.

Ainda não estão muito maiores mas estão muito mais pombos, já abrem os olhos, já têm penas (penitas) nas pontas das asas que por isso já não estão tão ridículas, os bicos estão ainda maiores e estão muito mais mexidos,  viram e reviram mais vezes, abrem as asas e catam-se com os bicões.

Eles só ficam mesmo adultos, isto é capazes de se reproduzir, com seis meses. Portanto quando deixam o ninho devem ser uns mini-pombos... Ou então os pais vão aumentando o tamanho do ninho, o que não é difícil pois os ninhos de pombo são apenas uma espécie de muro feito com pauzinhos numa superfície plana e protegida, no caso o cantinho do canteiro.

Se não acontecer nenhum imprevisto, como morrerem afogados se chover, ou os pais morrerem atropelados e eles morrerem de inanição... veremos!

9º dia
Nos últimos dias não se nota grande desenvolvimento a nível de tamanho. O desenvolvimento nota-se é a nível de movimentos e da penugem a transformar-se em penas e da menor presença dos pais, continua sempre lá um de noite mas durante o dia vão aparecendo ambos, juntos ou separados, mas não ficam por muito tempo. E os borrachos já saem do ninho, como era previsível pois o ninho é minúsculo para o tamanho que já têm e, como já disse, não é uma "casa" é apens um "muro" mal parido :))

10º dia
Os borrachos continuam sem crescer muito mas nota-se a evolução porque já se equilibram nas patas (no princípio esticavam as patas alçando o rabo mas não passava disso) e começam a ter penas em vez de penugem, principalmente o maior que já tem as asas todas cobertas de penas. E continuam a enroscar-se no ninho para dormir embora quando estão em actividade saiam do ninho. E já por duas vezes (pontaria) que nas minhas espreitadelas assisti a uma cena demais, eles alçam o rabo para fora do ninho para cagarem :)) Asseados, não cagam no sítio onde dormem.


12º dia
Os borrachos estão muito maiores do que quando nasceram mas têm crescido devagarinho, tirando aquele  dia em que cresceram a olhos vistos da manhã para a noite, o crescimento não se nota diariamente. O que se nota é a substituição da penugem por penas e a destreza de movimentos. Mas estou mesmo curiosa para ver que tamanho vão ter quando chegar o momento de abandonarem o ninho, porque a menos que voltem a ter fases de crescimento acelerado... vão ser muito menores do que um pombo adulto, já têm quase 15 dias, portanto falta cerca de outro tanto tempo para deixarem o ninho, se não tiverem mais fases de crescimento acelerado só terão o dobro do tamanho que têm hoje que será de cerca de metade do tamanho de um pombo adulto.

E há uma coisa muito engraçada: o resultado das cagadelas deles que, como já  contei, são feitas com o rabo alçado para fora do ninho. O ninho original, um "muro" de pauzinhos soltos encavalitados, transformou-se num muro de "betão" armado, ou, mais propriamente, de "cagalhão armado" pois os pauzinhos ficaram agregados com os cócós :))

18º dia
Esta fase de desenvolvimento das criaturas não é muito interessante, o que mais se nota é o encorpamento pela substituição, rápida e progressiva, da penugem por penas, ficando cada vez mais com aspecto de pombos. Também estão maiores mas principalmente estão mais "cheios" por causa das penas. De resto passam o dia "espremidos" naquele ninho minúsculo, meio encostados meio por cima um do outro (e à noite ainda com a mãe em cima deles :)) quase não se mexem. E continuam a ter os bicos e as patas pretas característica que eu acho que é de não serem adultos e que, em algum momento, vai alterar para aquele tom rosado que é a côr dos bicos e patas de todas as pombas adultas. Eles já têm 18 dias, já faltam menos de 2 semanas para o momento de deixarem o ninho.
  
22º dia
O borracho que é maior desde o ovo, e que continua a ser maior, também se desenvolve mais rapidamente. Já está todo penado com excepção do papo onde ainda tem uns restos de penugem enquanto o outro ainda tem toda a cabeça e todo o pescoço penugentos.

E descobri que embora passem muito tempo sózinhos "espremidos" no ninho a dormir, também fazem umas actividades, usando o espaço do canteiro à volta do ninho, com ambos os pais ou um deles ou até sózinhos que suponho que são "treinos" e que consistem em saltar e correr e dar às asas e dar e receber bicadas. Mas não consigo assistir a esta actividade senão por 1 segundo já que mal espreito eles se piram todos, os pais voam dali para fora e os filhos correm a "espremer-se" no ninho (como se isso valesse de algo, eu não tenho acesso ao canteiro mas se tivesse... tanto tinha ao "ginásio" como ao ninho, e se em vez de ser eu fosse uma ave de rapina... bem que os papava, aquele ninho "muro de cagalhão armado" não os safava :))

E não sei o que lhes vai acontecer se antes de eles voarem vierem colocar novas janelas na minha marquise. Como a ALP e o pessoal que a ALP contrata funcionam ao retardador... pode ser que só venham colocar as novas janelas depois deles terem voado... (a ALP informou-me na 5ª feira que a obra tinha sido adjudicada e que o homem que cá veio da parte deles dar orçamento me iria contactar para marcar a vinda). Se vierem antes... logo se vê, talvez sobrevivam só com um grande susto.

27º dia 9H30
Os borrachos eram Caim e Abel. E Caim já matou Abel. Não sei que raio se passou mas... à 1H30, hora a que me deitei, espreitei os borrachos e  eles estavam parados um ao lado do outro fora do ninho e nem se mexeram com a minha espreitadela. Achei estranho estarem fora do ninho e paradões, mas não se terem assustado comigo atribuí a verem mal e à noite não repararem na minha presença. Às 7 da manhã acordei com sede e fui à cozinha beber água e espreitei-os. Estavam "espremidos" no ninho a dormir como de costume. Às 9H00 quando me levantei... o borracho mais pequeno estava estendido, morto, com um enorme buraco sanguinolento no lombo e o borracho maior parado, estático, num cantinho do canteiro (que não o do ninho) com o bico cheio de sangue, e parece hipnotizado, nem se mexeu com a minha presença e tentei mesmo assustá-lo sem obter qualquer reacção. Quero ver o que vai acontecer de seguida... será que foram abandonados pelos pais e o Caim vai ficar ali especado e morrer também?  Ou será que  foi um resultado acidental - e "normal" - de uma luta entre borrachos e o Caim vai voar dali para fora daqui a uns dias? Vou ter de esperar para descobrir, o ‘timing’ é de pombo, e entretanto... ESPERO que o cadáver de Abel não comece a feder...

27º dia 14H30
Saí de casa por volta do meio-dia. Espreitei o canteiro antes de sair e o borracho Caim continuava no mesmo cantinho mas já não estava estático, já se movia, deitava, levantava, reagia a ruídos. Quando voltei para casa, 2 horas e meia depois de ter saído, o Caim tinha sumido! Ou seja, voou!

Esta "aula prática" sobre pombos deixou-me com dois mistérios, 1º: onde se metem os pombos do tamanho do Caim. Pelos vistos abandonam o ninho. Mas nunca vi por aí nenhum pombo naquele estágio de desenvolvimento. Já tinha o corpo todo coberto por penas mas o tamanho ainda era só metade do tamanho de um pombo adulto; e 2º porque é que o Caim matou o Abel? Será que era a hora de abandonar o ninho e o Abel (mais pequeno e ainda com uns resquícios de penugem) não estava preparado e foi por isso que o outro o matou?

Começo a achar que os borrachos foram abandonados pelos pais antes do tempo e que a cena do Caim ter morto o Abel teve a ver com isso e que depois o Caim voou para a morte. No chão junto ao passeio do outro lado da avenida, mas mesmo em linha recta com o canteiro, está, acho, um cadáver de borracho. Não consigo ver bem à distância do meu 3º andar mas tenho quase a certeza. Quando voltar a sair vou lá espreitar para confirmar.

27º dia 18H00
Afinal o cadáver de pombo que está do lado de lá da avenida é metade de um pombo adulto, está a outra metade logo a seguir.

E em cima do muro do cemitério, mesmo aqui em frente, está, há horas, um borracho. Tenho a certeza de que é um borracho pelo tamanho e pelo comportamento, está, como já disse há horas, para trás e para a frente numa distância de 1 metro em cima do muro, ora dá uns passitos, ora fica parado em pé, ora se deita, ora se levanta e dá às asas, abre-as, sacode-as, fecha-as de novo, mas não levanta voo nem sai dali daquele metro de muro (não, não estive horas a olhar para o pombo, apenas depois de o ter topado fui espreitá-lo várias vezes e ele sempre está no mesmo sítio). E é parecido com o Caim. Mas o Caim (: tal como o falecido Abel :) é um pombo dos mais comuns, não tem nenhum sinal particular, pelo que não posso garantir que aquele borracho que está, aparentemente um bocado à toa, em cima do muro do cemitério seja o Caim. Mas  é muito provável que seja... Até porque nunca me lembro de ver um pombo com aquele tamanho e muito menos com aquele comportamento por aí.

Será que todos os borrachos se fazem à vida assim sózinhos? E será que matarem-se uns aos outros em lutas é normal? Ou será que aconteceu mesmo alguma coisa com os pais do Abel e do Caim e os desatinos vieram deles ficarem orfãos um bocadito antes do momento próprio para deixarem o ninho? Pelo que eu li eles deixam o ninho com 30 dias e estes só nasceram há 27 dias (e embora 3 dias não seja nada... em vida de pombo é capaz de ser a diferença entre um pombo adolescente e um pombo criança), se calhar os pais são os cadáveres que estão aqui em frente (além do partido ao meio há outro inteiro um metro abaixo) e eles ficaram, digamos assim, prematuros :))

Pode ser que um dia eu consiga obter mais informação sobre pombos que responda a estas perguntas...

27º dia 20H00
Era mesmo o Caim que andou horas à toa no muro do cemitério (se calhar desde o momento em que deixou o meu canteiro, eu é que só o vi muito tempo depois). Quando finalmente se decidiu a arrancar do muro do cemitério... voou para a minha varanda onde ficou à toa pousado na balaustrada e deu para o ver muito bem. Depois voou meio atabalhoadamente para um dos choupos aqui em frente e só o vi a baixar, baixar, baixar, pelo meio dos ramos do choupo, presumo que à procura de onde pousar, e deixei de o ver. Não sei se pousou no choupo ou se foi a baixar até ao chão (dentro do cemitério). Mas acho mesmo que algo se passou com os pombos-pais e o Caim e o Abel ficaram sózinhos antes da idade da autonomia, pois de todo não acho que o Caim esteja preparado para sobreviver sózinho, acho que vai lerpar tal como o Abel.

Espero que mais nenhuma pomba resolva pôr ovos naquele canteiro antes da colocação das novas janelas que me permitirão impedi-lo pois vão ser janela “normais”, ou seja, a janela para o canteiro vai ser de abrir, vou poder limpar o cadáver do Abel e o ninho de “cagalhão armado” e poder fazer alguma coisa para afastar de lá as pombas. Para aula prática de biologia já chegou, agora preciso de aulas teóricas que me expliquem este final inesperado de “assassinato e autonomia precoce” a que assisti :))

28º dia
O Caim, pelo menos até há bocado, sobreviveu. Pelas 14 e picos fui dar com ele pousado no muro do canteiro onde jaz o Abel. Enxotei-o. Para ver como ele se desenrascava. Primeiro teve reacção de borracho, cada vez que eu agitava a cortina ou batia no vidro dava uns passitos para o lado. Depois eu resolvi ser drástica e abanei um saco de plástico próximo do canteiro esticando o braço por fora pela janela frontal da marquise. E ele voou, muito mais à vontade e mais alto do que ontem, foi dar uma curva por cima do cemitério e veio aterrar no telhado da marquise do prédio aqui ao lado. Azar! Estava lá um pombo adulto que pelos vistos se acha dono do pedaço, (tem lá algum ninho provavelmente), e se atirou ao Caim mal este aterrou obrigando-o a levantar voo de novo. Mas pousou logo ao lado no telhado daqui do prédio. E lá ficou por longo tempo. Mais tarde voltei a vê-lo, pousado no alto do candeeiro da rua aqui em frente. Continua muito borracho embora cada vez mais pombo. O tamanho ainda é muiiiito menor do que um pombo adulto, o bico continua preto e sem aquelas protuberâncias brancas que os bicos dos pombos têm e as patas estão a avermelhar mas ainda não estão da cor das patas de um adulto. Decididamente ele teve de se fazer à vida antes do tempo próprio, seja porque os progenitores morreram seja por outro motivo qualquer, e antes de o fazer, também sei lá porquê, travou uma luta de morte com o irmão (o canteiro estava cheio de penas sinal de que a morte do Abel foi precedida de uma luta). Voar consegue e está a melhorar, não sei se também consegue comida... Se sim, vai safar-se, se não... vai fazer companhia ao Abel. Mas tenho a certeza de que ele ainda é novo demais para ser autónomo. Ainda hoje andei a reparar na pombaria e vi por aí algumas pombas nitidamente muito jovens, pelo tamanho e encorpamento muito menores do que o das pombas mais velhas, mas mesmo assim um bom bocado maiores do que o Caim,  e já com as protuberâncias brancas no bico e quer o bico quer as patas com o tom avermelhado usual. Não vi nenhum pombo no ponto de desenvolvimento do Caim além do próprio Caim :))

30º dia
Não voltei a ver o Caim. E agora mesmo que o veja... não vou reconhecê-lo pois já deve estar desenvolvido e igual a mais milhentos pombos jovens que andam por aí. Isto se ele sobreviveu... Achei estranho ele não voltar a dar a cara (o bico no caso) por aqui pois no meu "curso teórico" aprendi que eles voltam ao local onde nascem, mas também pode ter aparecido e eu não ter visto já que não passo 24H por dia de "atalaia" aos pombos. Mas suspeito que tenha andado por aqui algum exterminador de pombos porque desde que deixei de ver o Caim também tenho visto muito menos pombos em geral... Mais um mistério para juntar ao assassinato do Abel e à autonomia precoce do Caim...

31º dia
Quem com ferros mata... com ferros morre. O final da história dos borrachos no canteiro encontrei-o hoje: 90% de certeza o Caim está cadáver, com um buraco nas costas tal como ficou o Abel, na valeta aqui em frente ao café do r/c (passei lá hoje de manhã  a tomar uma bica e topei com o cadáver do Caim quando saí). Não sei se foi bicado por outro pombo ou se levou uma panada de um automóvel, mas o certo é que morreu com um buraco nas costas tal como o que ele fez ao Abel.

Resumo da história: vida de pombo na cidade é difícil, o que lhes vale é que produzem borrachos, 1 ou 2 de cada vez, cerca de 6 vezes no ano. Pela amostra do ninho no meu canteiro, 2 borrachos ambos mortos antes de chegarem a pombos... coitados... a capacidade de sobrevivência é diminuta. Isto é o ponto de vista dos pombos, claro! O ponto de vista dos governos e moradores das cidades (eu incluída apesar de até achar as pombas simpáticas) ainda bem que a sobrevivência é diminuta pois já há muiiiiitos, muiiiiitos pombos a mais, já são uma praga.